INEP Revalida - Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos — Prova 2015
Uma menina de 4 anos de idade é levada à consulta por sua mãe, juntamente com bilhete da diretora da creche onde passa o dia. O bilhete informa que a criança está coçando muito o corpo, provocando lesões, fato que tem sido recorrente. A mãe insistiu que trata com pomadas e que evita o banho para não ferir mais. As lesões são pequenas pápulas e vesículas, com algumas crostas, muito pruriginosas. Elas se localizam principalmente no abdome, nas nádegas, no tronco e nas mãos. A mãe tem sua pele examinada e também apresenta lesões idênticas às da menina, no abdome e nas axilas. Diante desse quadro, assinale a opção que apresenta, respectivamente, a hipótese diagnóstica mais provável e a conduta adequada ao caso:
Prurido intenso + lesões em mãos/abdome + contactantes sintomáticos = Escabiose. Tratar TODOS simultaneamente.
A escabiose é uma ectoparasitose altamente contagiosa; o diagnóstico é clínico e o tratamento deve envolver o paciente e todos os contatos domiciliares para evitar recidivas.
A escabiose é causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei var. hominis. A transmissão ocorre por contato direto pele a pele prolongado ou, menos frequentemente, por fômites. O período de incubação em pessoas sem exposição prévia é de 2 a 6 semanas, mas em reinfestações os sintomas surgem em 1 a 4 dias devido à sensibilização prévia. No contexto escolar e de creches, a identificação de um caso exige a comunicação imediata à instituição, pois o risco de surto é elevado. O afastamento temporário (geralmente 24h após o primeiro tratamento) é recomendado. O erro comum de confundir com estrófulo (picada de inseto) atrasa o controle epidemiológico. Enquanto o estrófulo é uma reação de hipersensibilidade individual e não contagiosa, a escabiose é uma infestação parasitária que exige intervenção coletiva no núcleo familiar.
O diagnóstico da escabiose é predominantemente clínico, baseado na tríade: prurido intenso com exacerbação noturna, morfologia das lesões (pápulas, vesículas, túneis acarianos e escoriações) e distribuição característica. Em crianças, as lesões costumam poupar a face, concentrando-se em dobras axilares, abdome (periumbilical), nádegas, espaços interdigitais e genitália. A presença de familiares ou contatos próximos com sintomas semelhantes é um dado epidemiológico de altíssimo valor preditivo. Em casos duvidosos, pode-se realizar o raspado cutâneo para visualização direta do ácaro Sarcoptes scabiei, seus ovos ou fezes (cíbalas) ao microscópio.
A primeira linha de tratamento é a Permetrina 5% em creme, aplicada do pescoço para baixo (em bebês inclui-se a cabeça) e removida após 8 a 12 horas. Recomenda-se repetir a aplicação após 7 a 14 dias para atingir parasitas que eclodiram dos ovos após a primeira dose. A Ivermectina oral (200 mcg/kg em dose única, repetida em 7-14 dias) é uma alternativa eficaz, especialmente em surtos institucionais ou casos resistentes, mas deve ser evitada em crianças com menos de 15 kg. O tratamento de todos os contatos domiciliares, mesmo assintomáticos, é obrigatório e deve ser feito simultaneamente ao do paciente índice.
Além do tratamento medicamentoso, é essencial lavar roupas de cama, toalhas e vestimentas usadas nos últimos 3 dias em água quente (60°C) e secá-las em alta temperatura. Itens que não podem ser lavados devem ser selados em sacos plásticos por no mínimo 72 horas, tempo suficiente para que o ácaro morra fora do hospedeiro humano. O prurido pode persistir por até 2 a 4 semanas após o tratamento bem-sucedido devido à reação de hipersensibilidade aos antígenos do ácaro (prurido pós-escabiótico), o que não indica necessariamente falha terapêutica e pode ser manejado com anti-histamínicos ou corticoides tópicos leves.
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