Endocardite por Streptococcus bovis: Diagnóstico e Critérios

UERJ/HUPE - Hospital Universitário Pedro Ernesto (RJ) — Prova 2015

Enunciado

Um paciente de 58 anos é admitido em um hospital para investigação diagnóstica de quadro de febre obscura. Segundo informa, seu quadro se iniciou há cerca de 12 semanas com febre moderada, intermitente, ocasionalmente associada a calafrios. Ao longo desse período, somaram-se ao quadro artralgias, mialgias e anorexia, tendo emagrecido cerca de 7 kg (emagrecimento significativo). Nos últimos cinco dias, apresentou dois episódios de hematúria macroscópica, além de terem sido observados edemas periféricos e palpebral (matinal). Em termos de história patológica pregressa, o paciente relata passado de parotidite, tuberculose pulmonar – ocorrida há 22 anos e tratada por seis meses, com alta do tratamento – pneumonia na adolescência e prolapso de valva mitral – com disfunção da valva (sic) – além de ter realizado colecistectomia há oito anos. É tabagista há longa data, com carga tabágica de 48 maços-ano. Não existem outros dados dignos de nota na anamnese. Ao exame físico, tem regular estado geral, eupneico, hipocorado 2+/4+, febril (38ºC); PA = 136 x 80 mmHg; FC = 112 bpm; FR = 22 irpm, RCR 3T (B3), B1 hipofonética, com presença de sopro sistólico 3+/6+ irradiado para axila esquerda. Expansibilidade pulmonar normal; presença de estertores bolhosos finos em ambas as bases pulmonares. Abdome escavado, flácido, indolor, com espaço de Traube ocupado; ausência de massas ou visceromegalias palpáveis. Membros inferiores sem edemas, com panturrilhas livres e dor à manipulação ativa do joelho esquerdo, que se revela com temperatura local aumentada. Nas extremidades distais dos segmentos corporais, há lesões violáceas indolores e hemorragias subungueais no 3º e 4º quirodáctilos direitos, além de petéquias distais nos membros inferiores. Os exames complementares disponíveis são: hemograma com anemia normocrômica e normocítica e 13.500 leucócitos (8% bastões); eletrólitos normais; glicose = 96 mg/dl; ureia = 56 mg/dl; creatinina = 2,2 mg/dl; EAS com hematúria e cilindrúria (incluindo cilindros hemáticos); VHS = 100 mm 1ª hora; proteína C reativa positiva; pesquisa de FAN com título 1:80 e padrão homogêneo; pesquisa de fator reumatoide positiva; anti-CCP negativo; anti-HAV total negativo; HBsAg negativo; anti-HBc IgG positivo; anti-HBe positivo; anti-HBs positivo; anti-HCV negativo; hemoculturas com três amostras positivas para Streptococcus bovis; eletrocardiograma com taquicardia sinusal e alteração de ST-T difusa e inespecífica; telerradiografia de tórax em PA e perfil com área cardíaca um pouco aumentada e aumento da trama vascular para os ápices. A respeito do caso apresentado, responda. Determine a hipótese diagnóstica principal e cite os dois exames complementares indicados para defini-la, considerando que tais exames são tidos como critérios maiores para o diagnóstico dessa doença.

Alternativas

Pérola Clínica

Febre + Sopro novo + Fenômenos embólicos/imunológicos + S. bovis → Endocardite Infecciosa (investigar cólon).

Resumo-Chave

O quadro clínico sugere endocardite subaguda. A presença de Streptococcus bovis (S. gallolyticus) exige obrigatoriamente a realização de colonoscopia para descartar neoplasia colorretal.

Contexto Educacional

A endocardite infecciosa é uma infecção do endocárdio, geralmente valvar, com alta morbimortalidade. O diagnóstico baseia-se nos Critérios de Duke Modificados, que combinam achados clínicos, microbiológicos e ecocardiográficos. O tratamento envolve antibioticoterapia prolongada e, em casos de insuficiência cardíaca grave, infecção não controlada ou alto risco embólico, intervenção cirúrgica. A identificação do agente etiológico é crucial para guiar a terapia e investigar focos primários de infecção, como o trato gastrointestinal no caso do S. bovis.

Perguntas Frequentes

Quais são os critérios maiores de Duke para endocardite?

Os critérios maiores de Duke incluem: 1) Hemoculturas positivas para microrganismos típicos (como S. viridans, S. bovis, grupo HACEK, S. aureus) em duas amostras separadas ou persistência de hemoculturas positivas; 2) Evidência de envolvimento endocárdico demonstrado por ecocardiograma (presença de vegetação, abscesso, nova deiscência de prótese valvar) ou nova regurgitação valvar. A presença de dois critérios maiores sela o diagnóstico definitivo de endocardite infecciosa.

Qual a relação entre Streptococcus bovis e o câncer de cólon?

Existe uma associação epidemiológica clássica entre a bacteremia ou endocardite por Streptococcus bovis (especialmente o biotipo I, agora classificado como S. gallolyticus) e a presença de lesões colônicas, como adenomas e adenocarcinoma colorretal. Acredita-se que a ruptura da barreira mucosa intestinal pela neoplasia facilite a translocação bacteriana para a corrente sanguínea. Portanto, todo paciente com isolamento de S. bovis em hemoculturas deve ser submetido a uma colonoscopia completa.

Como diferenciar as lesões de Janeway dos nódulos de Osler?

As lesões de Janeway são máculas ou pápulas eritematosas ou hemorrágicas, indolores, localizadas tipicamente nas palmas das mãos e plantas dos pés; representam microabscessos de origem embólica. Já os nódulos de Osler são pápulas ou nódulos pequenos, dolorosos, violáceos, localizados nas polpas digitais; sua origem é imunológica (deposição de imunocomplexos). Ambas são manifestações periféricas importantes que compõem os critérios menores de Duke.

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