Encefalopatia Hepática: Desencadeantes e Manejo em Cirrose

Hospital Alemão Oswaldo Cruz (SP) — Prova 2020

Enunciado

Mulher, 62 anos, antecedente pessoal de Cirrose Hepática Child B9 por NASH, é trazida ao Pronto-Socorro por desorientação e sonolência há 1 dia. Em uso domiciliar de Furosemida, Espironolactona, Propranolol e Lactulose. Ao exame físico encontra-se em Escala de coma de Glasgow 10 (A02 RV3 RM5), presença de flapping, exame abdominal com ascite não tensa e toque retal com melena. Exames laboratoriais evidenciam hemograma e eletrólitos sem alterações. Realizada paracentese diagnóstica com achado de 290 leucócitos por mm3 , sendo 72% de neutrófilos. Qual provável desencadeante do quadro de encefalopatia da paciente?

Alternativas

  1. A) Peritonite Bacteriana Espontânea.
  2. B) Hemorragia Digestiva Alta.
  3. C) Excesso de diuréticos.
  4. D) Peritonite Bacteriana Secundária.
  5. E) Constipação.

Pérola Clínica

Melena em cirrótico com encefalopatia → HDA é o principal desencadeante, mesmo com paracentese 'limpa'.

Resumo-Chave

A presença de melena indica hemorragia digestiva alta, que é um dos principais desencadeantes de encefalopatia hepática em pacientes cirróticos. O sangue no trato gastrointestinal aumenta a carga de nitrogênio, que é convertida em amônia pelas bactérias intestinais, sobrecarregando o fígado já comprometido.

Contexto Educacional

A encefalopatia hepática é uma complicação neuropsiquiátrica da cirrose, caracterizada por um espectro de alterações cognitivas e motoras. Sua descompensação é frequentemente precipitada por fatores desencadeantes em pacientes com cirrose hepática, como a apresentada no caso (Child B9 por NASH). É crucial identificar e tratar esses desencadeantes para reverter o quadro. No caso clínico, a presença de melena no toque retal é um sinal inequívoco de hemorragia digestiva alta (HDA). A HDA é um dos mais potentes desencadeantes de encefalopatia hepática, pois o sangue no trato gastrointestinal serve como substrato para as bactérias intestinais produzirem amônia e outras neurotoxinas. Essas substâncias, que normalmente seriam metabolizadas pelo fígado, atingem a circulação sistêmica e o cérebro devido à disfunção hepática e à presença de shunts portossistêmicos. Embora a paracentese tenha mostrado 290 leucócitos/mm³, com 72% de neutrófilos (aproximadamente 208 PMN/mm³), este valor está abaixo do limiar diagnóstico para Peritonite Bacteriana Espontânea (PBE), que é ≥ 250 PMN/mm³. Portanto, a PBE não é o desencadeante mais provável neste cenário. O excesso de diuréticos poderia causar desidratação e desequilíbrio eletrolítico, e a constipação aumentaria a produção de amônia, mas a melena aponta diretamente para a HDA como o fator precipitante mais evidente e grave.

Perguntas Frequentes

Quais são os principais desencadeantes da encefalopatia hepática?

Os principais desencadeantes da encefalopatia hepática incluem hemorragia digestiva (aumento da carga proteica), infecções (como PBE), desidratação, uso de sedativos, constipação, desequilíbrios eletrolíticos (hipocalemia) e shunt portossistêmico.

Como a hemorragia digestiva alta desencadeia a encefalopatia hepática em cirróticos?

A hemorragia digestiva alta leva ao acúmulo de sangue no trato gastrointestinal. As bactérias intestinais degradam o sangue, liberando amônia e outras toxinas nitrogenadas que, devido à função hepática comprometida e shunts portossistêmicos, não são metabolizadas adequadamente, atingindo o cérebro e causando encefalopatia.

Qual o critério diagnóstico para Peritonite Bacteriana Espontânea (PBE) na ascite?

O diagnóstico de PBE é estabelecido pela contagem de polimorfonucleares (PMN) no líquido ascítico ≥ 250 células/mm³, na ausência de uma fonte intra-abdominal de infecção cirúrgica.

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