Encefalopatia Hepática: Fatores Precipitantes e Manejo

HVC - Hospital Vera Cruz (SP) — Prova 2023

Enunciado

Homem de 68 anos de idade comparece ao ambulatório com queixa de que está apresentando alteração do ciclo sono-vigília e, esporadicamente, comportamentos inadequados em situações sociais. Adicionalmente, relata que o ritmo intestinal está mais lento, passando de duas para uma evacuação ao dia. Nega outros sintomas. Tem história de cirrose hepática Child B (8) por hepatite C, a qual foi previamente tratada, com resposta virológica sustentada. Apresentava ascite, que melhorou com dieta hipossódica, furosemida 80mg/dia e espironolactona 200mg/dia. Ao exame físico, apresenta pressão arterial de 100x60mmHg, frequência cardíaca de 75bpm, frequência respiratória de 14irpm e saturação de oxigênio de 96%, em ar ambiente. Está lúcido, orientado, colaborativo e levemente hipoativo. Apresenta mucosas secas e icterícia (+/4). Tem discreto tremor de extremidades e asterixis. O abdome está globoso, flácido e indolor, sem sinais clínicos de ascite. Os exames evidenciaram: hemoglobina 10.0g/dL (VR 13,0 - 16,9g/dL); leucócitos 8.000/mm³ (VR 4500 - 10000/mm³) plaquetas 70.000/mm³ (VR 150.000 - 450.000/mm³); creatinina 1,4mg/dL (VR 0,6 - 1,3mg/dL); ureia 60mg/dL (VR 10 - 50mg/dL); potássio 3,1mEq/L (VR 3,5 - 5,0mEq/L); bicarbonato 30mEq/L (VR 22 - 26mEq/L); bilirrubina total 2,7mg/dL (VR < 1,2mg/dL); INR 1.5 (VR 0,8 1,0); albumina 3,3g/dL (VR 3,5-5,0g/dL) e alfafetoproteína normal. Ultrassonografia de abdome com doppler sem alterações. Qual foi o fator que precipitou o quadro neurológico do paciente?

Alternativas

  1. A) Dieta sem restrição proteica
  2. B) Uso de diuréticos
  3. C) Anemia de etiologia multifatorial
  4. D) Lesão renal aguda

Pérola Clínica

Encefalopatia hepática em cirrótico → atenção a diuréticos, hipocalemia e alcalose metabólica como precipitantes.

Resumo-Chave

O uso de diuréticos em pacientes cirróticos pode precipitar encefalopatia hepática através da indução de hipocalemia e alcalose metabólica, que aumentam a produção renal de amônia e sua passagem para o SNC. A desidratação e a disfunção renal associadas também contribuem.

Contexto Educacional

A encefalopatia hepática (EH) é uma complicação neuropsiquiátrica da doença hepática avançada, caracterizada por um espectro de alterações neurológicas e psiquiátricas. Sua prevalência é alta em pacientes com cirrose, e é uma causa importante de morbimortalidade. É crucial para residentes reconhecerem e manejarem seus fatores precipitantes para otimizar o prognóstico do paciente. A fisiopatologia da EH envolve principalmente a neurotoxicidade da amônia, que não é adequadamente metabolizada pelo fígado doente. Fatores precipitantes, como o uso de diuréticos, podem agravar esse quadro. Diuréticos podem levar à hipocalemia e alcalose metabólica, que aumentam a produção renal de amônia e facilitam sua passagem pela barreira hematoencefálica, respectivamente. A desidratação e a disfunção renal associadas também contribuem para a elevação dos níveis de amônia. O tratamento da EH envolve a identificação e correção dos fatores precipitantes, além do uso de lactulose e rifaximina para reduzir a produção e absorção de amônia intestinal. A monitorização cuidadosa dos eletrólitos e da função renal é fundamental em pacientes cirróticos em uso de diuréticos, visando prevenir a precipitação ou recorrência da EH.

Perguntas Frequentes

Quais são os principais fatores precipitantes da encefalopatia hepática?

Os principais fatores incluem sangramento gastrointestinal, infecções, constipação, uso de sedativos, disfunção renal, desidratação e distúrbios eletrolíticos como hipocalemia e alcalose metabólica.

Como os diuréticos podem precipitar a encefalopatia hepática?

Diuréticos podem causar hipocalemia e alcalose metabólica. A hipocalemia aumenta a produção renal de amônia, e a alcalose favorece a passagem da amônia para o cérebro, agravando o quadro neurológico.

Quais as alterações laboratoriais que sugerem encefalopatia hepática precipitada por diuréticos?

Alterações como hipocalemia, alcalose metabólica (bicarbonato elevado) e, por vezes, elevação da creatinina e ureia (sugerindo disfunção renal pré-renal) são indicativas.

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