Encefalite Herpética: Diagnóstico e Tratamento Urgente

Santa Casa de São Paulo - ISCMSP/FCMSCSP (SP) — Prova 2020

Enunciado

Um paciente de 55 anos de idade, hipertenso e tabagista, foi levado por sua filha ao pronto-socorro. Ela estava preocupada com o que ouviu sobre o comportamento recente do pai. Contou que ele é contador e sempre foi muito reservado e educado com seus clientes. Entretanto, há dois dias, seus funcionários notaram que ele estava agitado, saindo muitas vezes de seu escritório, e, quando encontrava algum cliente, o xingava sem motivo. Os funcionários só perceberam mesmo que havia algo errado quando ele saiu do escritório sem roupas no corpo. No consultório, queixou-se de cefaleia holocraniana iniciada há cerca de três dias. Negou viagens ou vacinações recentes. O exame físico revelou temperatura axilar de 38°C, pressão arterial de 160 x 85 mmHg, frequência cardíaca de 92 bpm, frequência respiratória de 20 ipm, dextro 99 mg/dL, Glasgow 14 (AO 4, RV 4 e RM 6) e rigidez de nuca, sem outras alterações no exame neurológico. Fundo de olho sem alterações. Foi coletado o liquor, que evidenciou aspecto límpido, pressão de abertura de 8 cmHO, presença de 10 células/mm³, com predomínio linfocítico, glicose 66 mg/dL, sem alterações no gram, tinta da China negativa, teste de látex negativo, VDRL negativo. Tomografia de crânio com contraste sem alterações. Considerando essa situação hipotética, assinale a alternativa que apresenta, respectivamente, o diagnóstico mais provável e o tratamento adequado.

Alternativas

  1. A) meningite meningocócica e ceftriaxona endovenosa
  2. B) encefalite herpética e aciclovir endovenoso
  3. C) neurocriptococose e anfotericina B endovenosa + flucitosina oral
  4. D) neurossífilis e penicilina G benzatina intramuscular
  5. E) meningite meningocócica e ampicilina endovenosa

Pérola Clínica

Alteração comportamental aguda + febre + LCR linfocítico + TC normal → Encefalite herpética = Aciclovir IV imediato.

Resumo-Chave

O quadro clínico de alteração comportamental aguda, febre, cefaleia e rigidez de nuca, associado a um LCR com pleocitose linfocítica e glicose normal, com TC de crânio sem alterações iniciais, é altamente sugestivo de encefalite viral, sendo a encefalite herpética a principal suspeita devido à gravidade e necessidade de tratamento específico com aciclovir.

Contexto Educacional

A encefalite herpética, causada principalmente pelo Herpes Simples Vírus tipo 1 (HSV-1), é a forma mais comum de encefalite esporádica e uma emergência neurológica grave. Caracteriza-se por inflamação do parênquima cerebral, frequentemente afetando os lobos temporais e frontais. Sua epidemiologia é global, sem predileção sazonal, e pode ocorrer em qualquer idade. A importância clínica reside na alta taxa de mortalidade e sequelas neurológicas significativas se não tratada precocemente. A fisiopatologia envolve a reativação do HSV latente nos gânglios trigeminais, com disseminação para o cérebro. O diagnóstico é desafiador devido à inespecificidade dos sintomas iniciais, que podem incluir febre, cefaleia, alterações de personalidade, convulsões e déficits focais. A suspeita deve ser alta em pacientes com alteração aguda do estado mental e febre. O líquor (LCR) tipicamente revela pleocitose linfocítica, proteinorraquia e glicose normal. A neuroimagem (TC ou RM) pode mostrar edema e hipersinal nos lobos temporais, mas pode ser normal no início. A confirmação é feita pela PCR para HSV no LCR. O tratamento da encefalite herpética é uma urgência médica e consiste na administração de aciclovir endovenoso em altas doses (10 mg/kg a cada 8 horas) por 14 a 21 dias. O início empírico do aciclovir deve ocorrer imediatamente após a suspeita clínica e coleta do LCR, sem aguardar resultados confirmatórios, para otimizar o prognóstico. O atraso no tratamento está associado a piores desfechos neurológicos e maior mortalidade, ressaltando a importância da agilidade diagnóstica e terapêutica.

Perguntas Frequentes

Quais são os sinais clínicos mais sugestivos de encefalite herpética?

Os sinais mais sugestivos incluem febre, cefaleia, alterações de comportamento (agitação, desinibição), convulsões, déficits neurológicos focais e, por vezes, rigidez de nuca.

Qual a importância do exame do líquor (LCR) no diagnóstico da encefalite herpética?

O LCR tipicamente mostra pleocitose linfocítica, proteinorraquia leve a moderada e glicose normal, embora possa haver hemácias. A PCR para HSV no LCR é o padrão-ouro para confirmação.

Por que o tratamento com aciclovir deve ser iniciado empiricamente na suspeita de encefalite herpética?

O tratamento com aciclovir deve ser iniciado empiricamente devido à alta morbimortalidade da encefalite herpética e à janela terapêutica crítica. Atrasos no início do antiviral pioram significativamente o prognóstico neurológico.

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