SMS Florianópolis - Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis (SC) — Prova 2023
Joana traz seu filho Miguel, 7 anos, para a consulta devido a queixa de dor abdominal recorrente. Relata que as dores iniciaram há aproximadamente 6 meses e estão mais frequentes nas últimas semanas, fazendo com que o filho faltasse alguns dias na escola. A dor é em região periumbilical, tipo cólica, de moderada a forte intensidade, sem irradiação. Quando questionado, Miguel nega qualquer alteração no hábito intestinal, sintomas urinários e sistêmicos. Exame físico do abdome sem alterações, pressão arterial: 100 x 60 mmHg, peso: 22 kg, altura: 120 cm. Joana está muito preocupada pois o filho de sua prima, da mesma idade de Miguel, começou com dores semelhantes ás de seu filho e após longa investigação foi diagnosticado com câncer. Traz consigo o resultado de exames solicitados em clínica popular de: hemograma, velocidade de hemossedimentação (VHS), proteína C reativa (PCR), parcial de urina e urocultura - todos normais. Mostra também o pedido de um ultrassom de abdome total e endoscopia digestiva alta, que não realizou devido o custo desses exames. A conduta mais adequada ao caso é:
Dor abdominal recorrente em criança sem sinais de alarme e exames normais → foco em aspectos psicossociais e manejo conservador.
A dor abdominal recorrente em crianças é frequentemente funcional (90-95% dos casos), sem causa orgânica identificável. Na ausência de sinais de alarme (perda de peso, vômitos biliosos, dor noturna, sangramento, alterações no exame físico ou exames laboratoriais), a conduta inicial deve ser uma anamnese detalhada dos aspectos psicossociais, diário da dor e tranquilização familiar.
A dor abdominal recorrente (DAR) é uma queixa comum na pediatria, definida como três ou mais episódios de dor abdominal em um período de três meses, suficientemente graves para interferir nas atividades diárias da criança. Estima-se que 10-15% das crianças em idade escolar apresentem DAR. É fundamental que residentes e estudantes de medicina saibam diferenciar as causas orgânicas das funcionais, sendo estas últimas responsáveis por 90-95% dos casos. A abordagem inicial da DAR deve ser uma anamnese detalhada, focando na caracterização da dor (localização, intensidade, irradiação, fatores de melhora/piora), sintomas associados e, crucialmente, na busca por sinais de alarme. Sinais de alarme incluem perda de peso, desaceleração do crescimento, dor noturna, vômitos biliosos, sangramento gastrointestinal, febre inexplicável, achados anormais no exame físico (massa, organomegalia) e exames laboratoriais alterados (anemia, inflamação). Na ausência desses sinais, e com um exame físico e exames laboratoriais básicos (hemograma, VHS, PCR, urina) normais, a probabilidade de uma causa orgânica grave é muito baixa. Nesses casos, a conduta mais adequada é focar nos aspectos psicossociais e familiares, que frequentemente desempenham um papel importante na dor funcional. Realizar uma anamnese abrangente sobre o ambiente escolar, familiar e emocional da criança, sugerir um diário da dor para identificar padrões e gatilhos, e tranquilizar a família sobre a natureza benigna da condição são passos essenciais. Evitar exames invasivos e caros desnecessariamente é crucial para não medicalizar a criança e não aumentar a ansiedade familiar, focando no manejo sintomático e no suporte psicossocial.
Sinais de alarme incluem perda de peso, desaceleração do crescimento, dor que acorda a criança à noite, vômitos persistentes (especialmente biliosos), disfagia, sangramento gastrointestinal (hematêmese, melena, enterorragia), diarreia crônica grave, febre inexplicável, artrite, achados anormais no exame físico (massa abdominal, organomegalia, dor localizada fora da região periumbilical) e exames laboratoriais alterados (anemia, VHS/PCR elevados).
A anamnese psicossocial é crucial, pois a dor abdominal funcional está frequentemente associada a estresse, ansiedade, problemas escolares, familiares ou sociais. Entender esses aspectos permite abordar a criança e a família de forma holística, oferecendo estratégias de enfrentamento e reduzindo a ansiedade, que pode exacerbar os sintomas.
Exames complementares devem ser solicitados apenas na presença de sinais de alarme que sugiram uma causa orgânica. Na ausência desses sinais, e com exame físico e exames laboratoriais básicos normais, a investigação extensa é desnecessária e pode aumentar a ansiedade da criança e da família, sem benefício clínico.
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