UFPR/HC - Complexo Hospital de Clínicas da UFPR (PR) — Prova 2020
Paciente de 10 anos, masculino, apresenta quadro de dor abdominal há 6 meses. A dor é periumbilical e mal definida, e ocorre sem irradiação, no final da tarde, quase diariamente. O paciente nega relação com alimentação. Não há fatores de piora ou melhora. O paciente não apresenta febre, diminuição de peso e nega perda de apetite ou vômitos; tem evacuação diária e as fezes apresentam consistência normal. A dor não melhora com as evacuações. Não apresenta outros sintomas. Exame físico normal, incluindo toque retal. Em relação ao caso apresentado, considere as seguintes afirmativas:1. Para esclarecimento do diagnóstico, está indicada a realização de uma radiografia simples de abdome. 2. A prescrição de amitriptilina é indicada. 3. Uma colonoscopia com biópsia de íleo terminal está indicada para descartar doença de Crohn. 4. Para abordagem correta do diagnóstico, é importante investigar o perfil psicossocial, incluindo relacionamento e dificuldades familiares ou com amigos, mudança de escola ou endereço e dificuldades na escola. Assinale a alternativa correta.
Dor abdominal funcional crônica em crianças: investigar perfil psicossocial é fundamental, exames invasivos só com sinais de alarme.
Em crianças com dor abdominal funcional crônica, sem sinais de alarme e com exame físico normal, a investigação psicossocial é a pedra angular do diagnóstico e manejo. Exames complementares invasivos, como colonoscopia, são geralmente desnecessários e devem ser reservados para casos com achados sugestivos de doença orgânica.
A dor abdominal funcional crônica (DAFC) é uma condição comum em crianças e adolescentes, caracterizada por dor abdominal recorrente sem uma causa orgânica identificável. É um diagnóstico de exclusão, baseado em critérios clínicos como os de Roma IV, e representa um desafio tanto para os pacientes quanto para os profissionais de saúde. A prevalência é alta, e o impacto na qualidade de vida da criança e da família pode ser significativo. A fisiopatologia da DAFC é multifatorial, envolvendo uma interação complexa entre fatores biológicos (como dismotilidade gastrointestinal e hipersensibilidade visceral), psicológicos (ansiedade, estresse) e sociais. O diagnóstico requer uma anamnese detalhada, exame físico completo e a exclusão de sinais de alarme que sugeririam uma doença orgânica. Na ausência desses sinais, exames complementares extensos e invasivos, como radiografias simples de abdome ou colonoscopia, são geralmente desnecessários e podem ser prejudiciais, aumentando a ansiedade e os custos. O manejo da DAFC é predominantemente não farmacológico e focado em uma abordagem biopsicossocial. A investigação do perfil psicossocial da criança e da família é crucial, abordando estressores, dificuldades escolares, relacionamentos e eventos de vida. Terapias cognitivo-comportamentais, técnicas de relaxamento e suporte familiar são pilares do tratamento. A amitriptilina pode ser considerada em casos refratários, mas sempre como parte de um plano terapêutico abrangente, e não como tratamento de primeira linha.
Sinais de alarme incluem perda de peso, febre inexplicada, vômitos persistentes, diarreia crônica grave, sangramento gastrointestinal, disfagia, dor que acorda a criança à noite, dor localizada fora da região periumbilical, história familiar de doença inflamatória intestinal ou úlcera péptica, e atraso no crescimento. A ausência desses sinais sugere dor funcional.
A dor abdominal funcional crônica está frequentemente associada a fatores psicossociais, como estresse, ansiedade, dificuldades escolares, problemas familiares ou com amigos. Identificar e abordar esses fatores é crucial para o manejo, pois eles podem exacerbar a percepção da dor e dificultar a resolução dos sintomas. Uma abordagem multidisciplinar é frequentemente necessária.
A amitriptilina, um antidepressivo tricíclico, pode ser considerada em doses baixas para dor abdominal funcional crônica refratária a outras abordagens, especialmente quando há comorbidades como ansiedade ou depressão. No entanto, ela não é a primeira linha de tratamento e deve ser usada após a exclusão de causas orgânicas e a tentativa de intervenções psicossociais e comportamentais.
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