Doença Anti-MBG: Diagnóstico e Fisiopatologia Glomerular

INEP Revalida - Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos — Prova 2011

Enunciado

Paciente do sexo feminino, com 14 anos de idade, recebe atendimento médico por apresentar quadro de hematúria macroscópica acompanhada de mialgia discreta, adinamia, discreta hipertermia (temperatura axilar = 37.8°C). A mãe informa que a paciente apresentou infecção de vias aéreas superiores há cerca de um mês, que regrediu após tratamento com amoxicilina durante sete dias. Por ocasião dessa primeira consulta a paciente apresenta hipertensão arterial (Pressão arterial = 150x110 mmHg), o fundo de olho é normal e não há outras alterações do exame físico. A paciente é hospitalizada pois os primeiros exames laboratoriais já mostram creatinina sérica elevada (8,4 mg/dL) e ela evolui rapidamente com oligoanúria, edema e agravamento da função renal. A hematúria macroscópica regride, mas persiste hematúria microscópica, com presença de cilindros hemáticos e a paciente passa a apresentar também proteinúria (3 g/24 h). A investigação clínico-laboratorial não evidencia presença de vasculite ou doença sistêmica. A dosagem de comple- mento sérico (C3, CH50) é normal; anticorpos antinucleares ausentes, pesquisa de fator antinuclear negativa. A paciente foi submetida à biópsia renal - fragmento com 30 glomérulos, com proliferação das células epiteliais da cápsula de Bownan e infiltração por macrófagos e linfócitos, configurando a presença de crescentes epiteliais em 70% dos glomérulos, alguns com aspecto fibrocelular. A imunofluorescência da biópsia renal, reproduzida abaixo, evidencia deposição linear de IgG - não há depósitos mesangiais; imunofluorescência negativa para IgM, IgA e C3. Com base na história clínica, evolução e na biópsia renal e imunofluorescência, pergunta-se qual o mecanismo responsável pelo dano glomerular?

Alternativas

  1. A) Reação antígeno-anticorpo in situ ao longo da membrana basal glomerular.
  2. B) Deposição de complexos imunes circulantes ao longo da membrana basal glomerular
  3. C) Alterações da imunidade celular, notadamente de macrófagos e linfócitos T auxiliares.
  4. D) Deposição de anticorpo antiantígeno citoplasmático de neutrófilos.
  5. E) Deposição de anticorpos antiantígenos estreptocócicos ao longo da membrana basal glomerular.

Pérola Clínica

Deposição linear de IgG na MBG + Crescentes epiteliais = Doença Anti-MBG (Goodpasture).

Resumo-Chave

A presença de depósitos lineares de anticorpos IgG ao longo da membrana basal glomerular (MBG) identifica a GNRP tipo I, onde anticorpos atacam diretamente o colágeno tipo IV.

Contexto Educacional

A Doença Anti-MBG é uma forma rara, porém agressiva, de vasculite de pequenos vasos limitada aos capilares glomerulares e/ou pulmonares. O quadro clínico de GNRP exige diagnóstico rápido, pois a função renal declina em dias ou semanas. O tratamento padrão envolve a remoção dos anticorpos circulantes via plasmaférese e a supressão da produção de novos anticorpos com corticosteroides e ciclofosfamida. Nesta questão, a descrição de uma adolescente com falência renal aguda, biópsia com 70% de crescentes e imunofluorescência linear de IgG fecha o diagnóstico de GNRP Tipo I (Anti-MBG). O mecanismo é a reação in situ, onde o anticorpo se liga diretamente ao antígeno fixo na membrana basal, desencadeando a cascata inflamatória destrutiva.

Perguntas Frequentes

O que caracteriza a imunofluorescência na Doença Anti-MBG?

A característica patognomônica é a deposição linear de imunoglobulina G (IgG) ao longo da membrana basal glomerular. Diferente de outras glomerulonefrites que apresentam depósitos granulares (formados por complexos imunes circulantes), na doença anti-MBG os anticorpos são direcionados especificamente contra o domínio NC1 da cadeia alfa-3 do colágeno tipo IV, que é um componente estrutural da própria membrana. Isso resulta em uma fixação contínua e uniforme do anticorpo, visível como uma linha nítida sob microscopia de imunofluorescência.

Qual a relevância clínica das crescentes epiteliais?

As crescentes epiteliais são o marcador histológico da Glomerulonefrite Rapidamente Progressiva (GNRP). Elas se formam devido à ruptura da parede capilar glomerular, permitindo o extravasamento de plasma, fibrina e monócitos para o espaço de Bowman. Isso estimula a proliferação das células epiteliais parietais e a infiltração de macrófagos. A presença de crescentes em mais de 50% dos glomérulos indica uma emergência médica, com risco iminente de perda definitiva da função renal se não tratada agressivamente com pulsoterapia e plasmaférese.

Como diferenciar a Síndrome de Goodpasture da GNPE?

Embora ambas possam cursar com hematúria e hipertensão, a GNPE (pós-estreptocócica) ocorre geralmente após um intervalo de 1 a 3 semanas de uma infecção, apresenta queda do complemento (C3 baixo) e padrão de imunofluorescência granular ('céu estrelado'). Já a Doença Anti-MBG/Goodpasture apresenta complemento normal, evolução muito mais rápida para insuficiência renal grave (creatinina elevada precocemente) e o padrão linear na imunofluorescência. Além disso, o Goodpasture pode apresentar hemorragia alveolar associada.

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