UFRGS/HCPA - Hospital de Clínicas de Porto Alegre (RS) — Prova 2025
Paciente feminina, negra, de 44 anos, consultou na UBS queixando-se de forte ansiedade, tristeza, choro fácil, pensamentos de desvalia, irritabilidade, cansaço excessivo, sensação de esgotamento e de incapacidade de executar as atividades de forma adequada, dificuldade de concentração e atenção, cefaleia e distúrbio do sono. Informou que trabalhava na mesma empresa há 5 anos, que iniciara como recepcionista e que fora promovida em poucos meses para auxiliar de escritório. Há 4 anos havia assumido a chefia do setor, que contava com 10 funcionários e alta demanda de trabalho. Desde então, vinha sofrendo cobranças excessivas e desrespeitosas de sua chefia imediata, inclusive com comentários em relação a sua etnia. Naquela época, começaram os sintomas descritos. Com base no relato, o médico da UBS prescreveu fluoxetina. A paciente retornou à UBS após 2 meses de uso do medicamento e relatou que a situação piorara drasticamente: solicitara um aumento salarial compatível com a função exercida que culminou com sua demissão imediatamente após o afastamento de 14 dias por doença. Diante do exposto, qual a primeira conduta a ser tomada?
Sintomas psíquicos + contexto laboral adverso → investigar nexo ocupacional e capacidade laboral antes de focar apenas em psicofármacos.
Diante de sintomas psíquicos que surgem e se agravam em um contexto de assédio moral e discriminação no trabalho, a primeira conduta deve ser a avaliação do nexo ocupacional e da capacidade laboral. Isso é crucial para proteger o paciente e garantir seus direitos, além de direcionar o tratamento de forma mais eficaz.
Doenças ocupacionais psiquiátricas são cada vez mais reconhecidas e representam um desafio significativo na saúde pública. Elas englobam transtornos mentais como depressão, ansiedade, síndrome de burnout e transtorno de estresse pós-traumático, que são desencadeados ou agravados por condições adversas no ambiente de trabalho, como assédio moral, discriminação, sobrecarga e pressão excessiva. É crucial que o médico da atenção primária esteja atento a esses fatores. A fisiopatologia envolve o estresse crônico e a exposição a fatores psicossociais negativos no trabalho, que levam a desregulações neuroendócrinas e psicossociais. O diagnóstico exige uma anamnese detalhada que correlacione o início e a evolução dos sintomas com a história laboral do paciente. A suspeita deve surgir quando há uma clara ligação temporal entre o ambiente de trabalho e o surgimento ou agravamento dos sintomas psíquicos. A conduta inicial não deve se limitar ao tratamento farmacológico dos sintomas, mas sim abordar a relação trabalho-doença. A avaliação da capacidade laboral e do nexo ocupacional é essencial para proteger o trabalhador, garantir seus direitos (como o afastamento e a emissão de CAT) e permitir uma intervenção mais eficaz que contemple a modificação ou afastamento do ambiente nocivo, além do suporte psicoterapêutico e farmacológico quando indicado.
Deve-se suspeitar quando os sintomas psíquicos (ansiedade, depressão, esgotamento) surgem ou se agravam em concomitância com condições de trabalho adversas, como assédio moral, discriminação, sobrecarga ou cobranças excessivas.
A CAT é fundamental para formalizar o reconhecimento da doença como relacionada ao trabalho, garantindo direitos previdenciários e trabalhistas ao paciente, como afastamento remunerado e estabilidade no emprego.
A avaliação do nexo ocupacional é prioritária porque permite identificar a causa-raiz do sofrimento, direcionar medidas de proteção ao trabalhador, como afastamento e emissão de CAT, e planejar um tratamento que considere o ambiente de trabalho como fator etiológico.
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