Manejo do Abscesso Perianal na Suspeita de Doença de Crohn

USP/HCFMUSP - Hospital das Clínicas da FMUSP (SP) — Prova 2024

Enunciado

Mulher de 17 anos, com dor anal contínua e piora há uma semana associada a abaulamento doloroso perianal/perivulvar esquerdo. Há um dia refere saída de secreção purulenta pelo grande lábio esquerdo com discreto alívio da dor. Refere ainda tratar diarreia há cerca de 6 meses, com probióticos, sem melhora. Ao exame físico: subfebril e anêmica. Região perianal: abaulamento doloroso hiperêmico associado a moderada quantidade de secreção purulenta, malcheirosa, aderida à pele, com aumento do calor local e dor à palpação superficial. Qual a conduta recomendada neste momento?

Alternativas

  1. A) Protoparasitológico de fezes 3 amostras + cultura de fezes e tratamento conservador com antibióticos/antiparasitários o mais breve possível.
  2. B) Realizar no consultório, em posição ginecológica, toque retal - precedido do vaginal – com coleta de material para cultura por punção ou biópsias.
  3. C) Iniciar antibioticoterapia endovenosa de largo espectro, associada à hidratação endovenosa, e jejum oral completo para exame sob narcose.
  4. D) Antibioticoterapia de largo espectro oral + loperamida de 8/8 horas + tratamento tópico com antibióticos e corticoides + banhos de assento + dosagens de marcadores pAnca e pAsca e reposição de ferro oral.

Pérola Clínica

Abscesso perianal + Diarreia crônica = Suspeitar de Doença de Crohn → Drenagem sob narcose + ATB IV.

Resumo-Chave

A presença de sintomas intestinais crônicos e anemia em paciente com abscesso perianal sugere Doença de Crohn. O manejo exige drenagem cirúrgica imediata e estabilização clínica.

Contexto Educacional

O caso descreve uma paciente jovem com manifestações sistêmicas (anemia, subfebril) e gastrointestinais crônicas (diarreia há 6 meses) apresentando uma complicação supurativa perianal. A conduta padrão para abscessos anorretais é a drenagem cirúrgica. No contexto de possível Doença de Crohn, a abordagem deve ser cuidadosa para identificar trajetos fistulosos complexos. A opção pela internação para antibioticoterapia venosa e exame sob narcose garante a segurança da paciente, o controle da dor e a eficácia do procedimento cirúrgico, além de permitir o início da investigação diagnóstica para a patologia de base.

Perguntas Frequentes

Por que realizar o exame sob narcose neste caso?

O exame sob narcose é fundamental para permitir uma exploração completa da anatomia anorretal sem o desconforto do paciente. Em casos de suspeita de Doença de Crohn, os abscessos podem ser complexos, profundos ou possuir múltiplos trajetos fistulosos associados. A anestesia permite a drenagem ampla, a identificação do orifício interno da fístula e, se necessário, a passagem de sedenhos, o que seria impossível ou extremamente doloroso em ambiente de consultório com anestesia local.

Qual a relação entre abscesso perianal e anemia/diarreia crônica?

A tríade de diarreia crônica, anemia e doença perianal (abscessos ou fístulas) é altamente sugestiva de Doença de Crohn (DC). A DC é uma doença inflamatória intestinal que pode afetar qualquer parte do trato gastrointestinal, sendo a região perianal acometida em cerca de 30% dos pacientes. A anemia decorre da inflamação crônica e má absorção, enquanto a diarreia reflete a atividade inflamatória intestinal. O abscesso é frequentemente a primeira manifestação clínica que leva o paciente ao médico.

Quando indicar antibioticoterapia sistêmica no abscesso perianal?

Embora abscessos perianais simples em pacientes hígidos possam ser tratados apenas com drenagem, a antibioticoterapia sistêmica (geralmente cobrindo Gram-negativos e anaeróbios) está indicada em pacientes com sinais de resposta inflamatória sistêmica (febre, taquicardia), celulite extensa, imunossupressão, diabetes mellitus ou doenças inflamatórias intestinais, como no caso clínico apresentado.

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