Anemia Ferropriva Refratária em Crianças: Investigando a Causa

HPEV - Hospital Professor Edmundo Vasconcelos (SP) — Prova 2025

Enunciado

Menina, de 11 meses de idade, está em seguimento com pediatra desde o nascimento. Ela apresenta uma alimentação adequada em qualidade e quantidade de nutrientes, foi mantida em aleitamento materno exclusivo até os 5 meses, quando foi iniciada a introdução alimentar. Apesar de uma rotina alimentar adequada, a criança tem apresentado baixo ganho de peso desde os 6 meses de vida. A mãe relata que a paciente apresenta em torno de 8 episódios de evacuações mais líquidas, sem dor abdominal, sem sangue ou muco nas fezes. Os exames realizados para investigar o quadro apresentaram os seguintes resultados: Foi iniciada a reposição com sulfato ferroso na dose de 5mg/kg/dia de ferro elementar há 45 dias. Retorna com os seguintes exames: Não há dúvidas sobre a adesão ao tratamento de reposição de ferro. Qual é a conduta correta neste momento? Exame Resultado Valor de Referência Hb (Hemoglobina) 8,0 g/dL 11,5 – 13,5 g/dL VCM (Volume Corpuscular Médio) 68 fL 75 – 87 fL RDW (Amplitude de Distribuição Eritrocitária) 18% 11,5 – 14,5% Ferro Sérico 25 µg/dL 50 – 120 µg/dL Ferritina 80 µg/L 15 – 149 µg/L PCR (Proteína C Reativa) 0,5 mg/dL < 5 mg/dL Reticulócitos 10.000/mm³ 22.000 – 94.000/mm³ Exame Resultado Valor de Referência Hb (Hemoglobina) 8,5 g/dL 11,5 – 13,5 g/dL Ferritina 100 µg/L 15 – 149 µg/L Reticulócitos 14.000/mm³ 22.000 – 94.000/mm³

Alternativas

  1. A) Realizar colonoscopia e cintilografia com hemácias marcadas.
  2. B) Realizar dosagem de calprotectina fecal em 2 amostras de fezes.
  3. C) Manter a dose de sulfato ferroso e reavaliar em 30 dias.
  4. D) Dosagem de IgA total e anti-transglutaminase tecidual IgA.

Pérola Clínica

Anemia ferropriva refratária + baixo ganho de peso + diarreia crônica em lactente → suspeitar de doença celíaca → solicitar IgA total e anti-transglutaminase tecidual IgA.

Resumo-Chave

A paciente apresenta anemia microcítica hipocrômica com resposta inadequada à suplementação de ferro, baixo ganho de peso e diarreia crônica. Esses achados são altamente sugestivos de má absorção intestinal, sendo a doença celíaca uma causa importante e comum nessa faixa etária. A investigação com marcadores sorológicos é o próximo passo.

Contexto Educacional

A anemia ferropriva é a deficiência nutricional mais comum na infância, mas quando refratária ao tratamento e associada a outros sintomas como baixo ganho de peso e diarreia crônica, levanta a suspeita de condições subjacentes de má absorção. A doença celíaca é uma enteropatia autoimune desencadeada pela ingestão de glúten em indivíduos geneticamente predispostos, sendo uma causa importante de má absorção em crianças e que pode se manifestar com anemia ferropriva isolada ou refratária. A fisiopatologia da doença celíaca envolve uma resposta imune mediada por células T à gliadina (componente do glúten), resultando em inflamação e atrofia das vilosidades do intestino delgado. Isso compromete a absorção de nutrientes, levando a sintomas como diarreia, distensão abdominal, baixo ganho de peso e deficiências vitamínicas e minerais, incluindo a anemia ferropriva. O diagnóstico é suspeitado clinicamente e confirmado por sorologia (anti-transglutaminase tecidual IgA e IgA total) e biópsia de intestino delgado. A conduta inicial diante de uma anemia ferropriva refratária com sinais de má absorção é investigar a causa subjacente. A dosagem de IgA total e anti-transglutaminase tecidual IgA é o primeiro passo para triagem de doença celíaca. Caso os exames sorológicos sejam positivos, a biópsia duodenal é geralmente indicada para confirmação. O tratamento consiste na exclusão rigorosa do glúten da dieta, o que leva à recuperação da mucosa intestinal e melhora dos sintomas e deficiências nutricionais.

Perguntas Frequentes

Quais são os sinais de alerta para má absorção intestinal em lactentes?

Sinais de alerta para má absorção intestinal em lactentes incluem baixo ganho de peso ou perda ponderal, diarreia crônica (com ou sem esteatorreia), distensão abdominal, irritabilidade, e deficiências nutricionais como anemia ferropriva refratária ao tratamento.

Por que a dosagem de IgA total e anti-transglutaminase tecidual IgA é importante na suspeita de doença celíaca?

A dosagem de anti-transglutaminase tecidual IgA é o principal teste de triagem para doença celíaca devido à sua alta sensibilidade e especificidade. A IgA total é dosada concomitantemente para excluir deficiência de IgA, uma condição comum que pode levar a resultados falso-negativos do anti-transglutaminase IgA.

Como diferenciar anemia ferropriva comum de anemia ferropriva refratária?

A anemia ferropriva comum geralmente responde bem à suplementação oral de ferro com aumento da hemoglobina e reticulócitos em 2-4 semanas. A anemia ferropriva refratária, por outro lado, não apresenta melhora significativa dos parâmetros hematológicos após 4-6 semanas de tratamento adequado, sugerindo uma causa subjacente como má absorção ou perda crônica de sangue.

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