SUS-BA - Sistema Único de Saúde da Bahia — Prova 2022
Mulher, 21 anos de idade, procura atendimento ambulatorial para investigação de diarreia crônica. Faz uso de anticoncepcional injetável. Ao exame, apresenta-se em bom estado geral, descorada +/4+. Realizados exames laboratoriais, com Hb: 10,5g/dL, ferritina 25ng/mL, vitamina D 11ng/dL. Solicitada endoscopia digestiva alta, com achado de redução do pregueado mucoso em segunda porção duodenal. Diante do quadro clínico, Identifique o anticorpo associado ao diagnóstico mais provável.
Diarreia crônica + anemia ferropriva + redução de pregas duodenais → Pesquisar Antitransglutaminase IgA.
A doença celíaca é uma enteropatia autoimune desencadeada pelo glúten, frequentemente manifestada por má absorção de micronutrientes (ferro, Vit D) e atrofia de vilosidades duodenais.
A doença celíaca é uma condição autoimune sistêmica que ocorre em indivíduos geneticamente predispostos (HLA-DQ2 ou DQ8) em resposta à ingestão de glúten. O quadro clínico clássico de diarreia e perda de peso é apenas a 'ponta do iceberg', sendo as formas não clássicas (anemia, osteopenia, infertilidade) cada vez mais diagnosticadas em adultos. No caso apresentado, a paciente de 21 anos exibe sinais claros de má absorção (anemia ferropriva e hipovitaminose D) e alterações endoscópicas duodenais. O anticorpo antitransglutaminase tecidual IgA é o marcador sorológico mais custo-efetivo e preciso para guiar o diagnóstico, que deve ser confirmado por biópsia antes da instituição de uma dieta isenta de glúten por toda a vida.
O anticorpo antitransglutaminase tecidual da classe IgA (tTG-IgA) é o teste sorológico de escolha para o rastreio inicial da doença celíaca devido à sua alta sensibilidade e especificidade (ambas superiores a 95%). Ele detecta a resposta autoimune contra a enzima transglutaminase tecidual, que modifica os peptídeos de gliadina no intestino. Para que o teste seja confiável, o paciente deve estar em uma dieta contendo glúten. É fundamental dosar a IgA total simultaneamente, pois a deficiência seletiva de IgA é mais comum em celíacos; nesses casos, deve-se solicitar o tTG da classe IgG ou o anticorpo antipeptídeo de gliadina deaminado (DGP-IgG).
Na endoscopia digestiva alta, os sinais sugestivos de doença celíaca incluem a redução ou desaparecimento das pregas circulares duodenais, o aspecto em 'mosaico' da mucosa, o serrilhamento das pregas (scalloping) e a visualização de vasos submucosos devido ao afilamento da mucosa. No entanto, a confirmação exige biópsias duodenais (idealmente 1 do bulbo e 4 da porção distal). A histopatologia é classificada pelos critérios de Marsh-Oberhuber, caracterizando-se por linfocitose intraepitelial (>25 linfócitos por 100 enterócitos), hiperplasia de criptas e, no estágio mais avançado (Marsh 3), atrofia vilositária parcial ou total.
A doença celíaca causa uma síndrome de má absorção devido à destruição da superfície absortiva do intestino delgado proximal. O ferro é absorvido predominantemente no duodeno e jejuno proximal, áreas mais intensamente afetadas, o que explica por que a anemia ferropriva refratária é uma das manifestações extraintestinais mais comuns. Da mesma forma, a absorção de vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K) e cálcio fica comprometida. A deficiência de vitamina D, como vista no caso clínico, resulta da má absorção de gorduras e pode levar à osteopenia ou osteoporose precoce. A investigação de diarreia crônica com evidência de má absorção de micronutrientes deve sempre incluir a doença celíaca no diferencial.
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