Dissecção Aguda de Aorta: Diagnóstico e Manejo na Emergência

UFRJ/HUCFF - Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (RJ) — Prova 2025

Enunciado

Homem, 48 anos, com valva aórtica bicúspide e hipertensão arterial sistêmica (HAS), é admitido no Setor de Emergência com queixa de dor retrosternal de início súbito e forte intensidade. Exame físico: ansioso; sudoreico; pressão arterial sistêmica (PAS) = 90x40 mmHg; frequência cardíaca (FC) = 122 bpm; frequência respiratória (FR) = 23 irpm; sopro diastólico 3+/4+; estertoração difusa bilateralmente; pulso periféricos de amplitude reduzida e ausente em membro superior esquerdo. Eletrocardiograma (ECG) de admissão: hipertrofia ventricular esquerda e alterações inespecíficas da repolarização. Radiografia do tórax: aumento da área cardíaca, com contornos irregulares; discreto alargamento do mediastino e derrame pleural esquerdo. A principal hipótese diagnóstica é:

Alternativas

  1. A) Aneurisma da aorta descendente.
  2. B) Dissecção aguda da aorta.
  3. C) Embolia pulmonar.
  4. D) Síndrome coronariana sem supra desnível do segmento ST.

Pérola Clínica

Dor súbita + Assimetria de pulsos + Sopro diastólico = Dissecção de Aorta.

Resumo-Chave

A dissecção de aorta tipo A (Stanford) frequentemente envolve a valva aórtica e ramos braquiocefálicos, causando insuficiência aórtica e déficits de pulso.

Contexto Educacional

A dissecção aguda de aorta é uma condição de altíssima mortalidade, estimada em 1-2% por hora nas primeiras 24-48 horas se não tratada. A fisiopatologia envolve uma laceração na túnica íntima, permitindo que o sangue penetre na camada média e crie um falso lúmen. A classificação de Stanford divide as dissecções em Tipo A (envolve aorta ascendente) e Tipo B (apenas aorta descendente). No caso clínico apresentado, o paciente possui fatores de risco clássicos (HAS e valva bicúspide) e apresenta a tríade de complicações da dissecção proximal: choque (hipotensão), insuficiência aórtica aguda (sopro diastólico e edema pulmonar) e isquemia de membros (ausência de pulso em MSE). O derrame pleural esquerdo na radiografia pode indicar hemotórax por ruptura ou reação inflamatória periaórtica.

Perguntas Frequentes

Por que a valva aórtica bicúspide é um fator de risco para dissecção?

A valva aórtica bicúspide não é apenas uma anomalia valvar, mas faz parte de uma aortopatia congênita. Pacientes com essa condição apresentam alterações na camada média da aorta, como fragmentação de fibras elásticas e perda de células musculares lisas (necrose cística da média), o que fragiliza a parede arterial. Isso predispõe à formação de aneurismas e aumenta significativamente o risco de dissecção aguda, mesmo em pacientes jovens ou com hipertensão controlada. A associação com coarctação da aorta também é frequente, aumentando ainda mais o estresse hemodinâmico sobre a aorta ascendente.

Como diferenciar clinicamente a dissecção de aorta de um IAM?

Embora ambos causem dor torácica intensa, a dor da dissecção é tipicamente súbita, atingindo o pico de intensidade instantaneamente, e é descrita como 'rasgando' ou 'cortante', muitas vezes irradiando para o dorso. A presença de sinais focais, como assimetria de pulsos entre os membros ou diferença de pressão arterial >20 mmHg, sugere fortemente dissecção. Além disso, o aparecimento de um sopro de insuficiência aórtica novo ou déficits neurológicos súbitos apontam para o envolvimento da aorta ascendente e seus ramos, o que raramente ocorre no infarto agudo do miocárdio isolado.

Qual a conduta imediata na suspeita de dissecção de aorta tipo A?

A conduta imediata baseia-se no controle rigoroso da frequência cardíaca e da pressão arterial para reduzir o estresse de cisalhamento (dP/dt) na parede aórtica. O objetivo é manter a FC < 60 bpm e a PAS entre 100-120 mmHg, geralmente utilizando esmolol ou labetalol endovenoso. Após a estabilização hemodinâmica inicial, o diagnóstico deve ser confirmado rapidamente por Angio-TC de tórax e abdome ou Ecocardiograma Transesofágico. A dissecção tipo A (Stanford) é uma emergência cirúrgica absoluta, exigindo reparo imediato para evitar complicações fatais como tamponamento cardíaco ou ruptura aórtica.

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