Diarreia Pós-Colecistectomia: Diagnóstico e Manejo

PSU-MG - Processo Seletivo Unificado de Minas Gerais — Prova 2025

Enunciado

Mulher de 52 anos encontrava-se internada para a realização de colecistectomia videolaparacoscópica. No 2º dia do pós-operatório, apresentou dispneia de início súbito e présíncope. Ao exame físico, PA 70/50 mmHg, FC 134 bpm, FR 32 ipm e SpO2 86% (ar ambiente). A pele estava pálida e sudorética, e o tempo de enchimento capilar periférico era maior que 3 segundos. Após a ressuscitação volêmica com 1.000mL de solução cristaloide e administração de oxigênio pelo cateter nasal a 3 L/min, os dados vitais eram PA 104/64mmHg, FC 118 bpm, FR 20 ipm e SpO2 94% (ar ambiente). A angioTC do tórax revelou falhas de enchimento nas artérias dos lobos inferiores de ambos os pulmões. A dosagem de troponina sérica resultou em 0,34 ng/mL. O ecocardiograma revelou dilatação e hipocontratilidade do ventrículo direito. Cerca de oito meses depois, a paciente apresenta cinco episódios ao dia de evacuação com fezes líquidas, sem sangue, muco, pus ou restos alimentares. O sintoma iniciou logo após a alta hospitalar da internação para a cirurgia eletiva. As evacuações ocorrem predominantemente no período diurno principalmente após as refeições nega emagrecimento Desconhece comorbidades e nega uso de medicamentos. O estudo por endoscopia digestiva alta e colonoscopia não revelam anormalidades. EXAMES DE LABORATÓRIO: hemoglobina 15,2g/dL; leucócitos 6.300/mm³; proteína C reactiva 3 mg/L; anti-transglutaminase tecidual IgA não reagente; IgA total 280mg/dL; anti-HIV não reagente; exame parasitológico de fezes: negativo. Assinale a alternativa que indica o tratamento MAIS ADEQUADO nesse caso:

Alternativas

  1. A) Amitriptilina.
  2. B) Colestiramina.
  3. C) Duspatalin.
  4. D) Loperamida.

Pérola Clínica

Diarreia crônica pós-colecistectomia → Colestiramina (sequestrador de ácidos biliares).

Resumo-Chave

A diarreia pós-colecistectomia ocorre devido ao fluxo contínuo de ácidos biliares para o cólon, estimulando a secreção de água e eletrólitos; a colestiramina atua ligando-se a esses ácidos.

Contexto Educacional

A síndrome pós-colecistectomia engloba uma série de sintomas gastrointestinais que persistem ou surgem após a remoção da vesícula biliar. A diarreia crônica é uma manifestação comum, afetando cerca de 5% a 15% dos pacientes. O quadro clínico típico é de diarreia líquida, sem sinais de alarme (como sangue ou perda de peso), ocorrendo predominantemente após as refeições. O diagnóstico é clínico e de exclusão, como demonstrado no caso clínico onde exames endoscópicos e laboratoriais para doença celíaca e parasitoses foram negativos. A colestiramina não apenas trata os sintomas, mas confirma a suspeita de diarreia induzida por ácidos biliares. O manejo deve focar no ajuste de dose para equilibrar a consistência das fezes e minimizar os efeitos colaterais gastrointestinais da resina.

Perguntas Frequentes

Qual a fisiopatologia da diarreia após a colecistectomia?

Normalmente, a vesícula biliar armazena e concentra a bile, liberando-a em resposta à ingestão de gordura. Após a colecistectomia, há uma perda desse reservatório, resultando em um fluxo contínuo e desregulado de ácidos biliares para o intestino delgado. Quando a capacidade de reabsorção no íleo terminal é excedida, os ácidos biliares primários atingem o cólon. No cólon, eles estimulam a secreção de água e eletrólitos (diarreia secretora) e aumentam a motilidade colônica. Este quadro é conhecido como má absorção de ácidos biliares tipo III ou diarreia colerética, caracterizando-se por fezes líquidas, frequentemente pós-prandiais.

Como a colestiramina atua no tratamento desta condição?

A colestiramina é uma resina de troca aniônica que atua como um sequestrador de ácidos biliares no lúmen intestinal. Ela se liga aos ácidos biliares, formando um complexo insolúvel que é excretado nas fezes. Ao impedir que os ácidos biliares livres interajam com a mucosa colônica, a colestiramina interrompe o estímulo secretor e osmótico que causa a diarreia. É considerada o tratamento de escolha para a síndrome de má absorção de ácidos biliares, com resposta clínica frequentemente rápida, servindo inclusive como um teste terapêutico diagnóstico em casos suspeitos onde exames específicos (como o SeHCAT) não estão disponíveis.

Quais são os principais efeitos colaterais da colestiramina?

Embora eficaz, a colestiramina pode apresentar desafios de adesão devido ao seu sabor e textura arenosa. Os efeitos colaterais gastrointestinais são comuns e incluem constipação, flatulência, náuseas e desconforto abdominal. Além disso, por ser um sequestrador inespecífico, ela pode interferir na absorção de vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K) e de diversos medicamentos (como varfarina, tiazídicos e hormônios tireoidianos). Recomenda-se que outros medicamentos sejam administrados pelo menos 1 hora antes ou 4 a 6 horas após a colestiramina para evitar interações farmacológicas significativas.

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