Morte Encefálica: Critérios Diagnósticos e Protocolo no Brasil

Santa Casa de São Paulo - ISCMSP/FCMSCSP (SP) — Prova 2020

Enunciado

Um motoqueiro de 22 anos de idade foi vítima de acidente automobilístico na Marginal Pinheiros, tendo sofrido traumatismo cranioencefálico grave. Evoluiu em coma arresponsivo, aperceptivo e em Glasgow 3T. Não tem mais reflexos de tronco, sendo aventada a possibilidade de abertura de protocolo de morte encefálica (ME). Ao exame físico, encontrava-se sem sedação há mais de 24 h, com pressão arterial de 110 x 72 mmHg, em uso de noradrenalina, com frequência cardíaca de 108 bpm, saturação de oxigênio de 95%, sob ventilação mecânica, e temperatura esofágica de 35,5 °C. Apresenta poliúria. Exames laboratoriais mostraram: sódio 172 mEq/L; potássio 3,5 mEq/L; creatinina 1,2 mg/dL; ureia 68 mg/dL; hemoglobina 12,8 g/dL; leucócitos 16.800 /mm³ ; e plaquetas 178.000 /mm³. Com base nesse caso hipotético, assinale a alternativa correta.

Alternativas

  1. A) O protocolo de ME deve ser aberto, o intervalo mínimo entre os dois exames clínicos deve ser de 1 h e a declaração de óbito deve ser feita pelo médico do Instituto Médico Legal (IML).
  2. B) O protocolo de ME não deve ser aberto, pois a hipernatremia é uma causa de coma reversível que deve ser corrigida previamente.
  3. C) O protocolo de ME deve ser aberto, o intervalo mínimo entre os dois exames clínicos deve ser de 1 h e a declaração de óbito deve ser feita pelo médico assistente, caso a família autorize a doação de órgãos.
  4. D) O protocolo de ME deve ser aberto somente após a autorização dos familiares.
  5. E) O protocolo de ME deve ser aberto, o intervalo mínimo entre os dois exames clínicos deve ser de 6 h e a declaração de óbito deve ser feita pelo médico do IML.

Pérola Clínica

ME: paciente com TCE grave, Glasgow 3T, sem reflexos de tronco, sem sedação, normotérmico e euvolêmico. Hipernatremia por diabetes insipidus não impede abertura.

Resumo-Chave

O paciente apresenta quadro clínico compatível com morte encefálica (TCE grave, Glasgow 3T, ausência de reflexos de tronco, sem sedação). A hipernatremia com poliúria sugere diabetes insipidus central, uma complicação comum da ME, e não é uma condição reversível que impeça a abertura do protocolo. O intervalo entre os exames clínicos para adultos é de 1 hora.

Contexto Educacional

O diagnóstico de morte encefálica (ME) é um tema crítico na medicina intensiva e na doação de órgãos, representando a cessação irreversível de todas as funções do tronco cerebral e do cérebro. No Brasil, o protocolo é rigoroso e regulamentado, exigindo uma série de exames clínicos e complementares realizados por médicos distintos. A correta identificação dos critérios é fundamental para a segurança do processo. Para a abertura do protocolo de ME, o paciente deve apresentar coma não responsivo, ausência de reflexos de tronco cerebral e apneia. É crucial que não haja fatores confundidores, como sedação residual, hipotermia grave ou distúrbios metabólicos reversíveis. No caso apresentado, a hipernatremia com poliúria é um achado comum na ME, indicando diabetes insipidus central, e não impede a continuidade do protocolo, desde que a temperatura e a pressão arterial estejam adequadas. O protocolo brasileiro exige dois exames clínicos completos, realizados por médicos diferentes e com experiência, com um intervalo mínimo de 1 hora para adultos. Além disso, um exame complementar que comprove a ausência de fluxo sanguíneo cerebral ou atividade elétrica cerebral é mandatório. A declaração de óbito é feita pelo médico assistente ou, em casos de morte violenta ou suspeita, pelo IML, independentemente da doação de órgãos.

Perguntas Frequentes

Quais são os pré-requisitos para iniciar o protocolo de morte encefálica?

Os pré-requisitos incluem a presença de lesão cerebral estrutural irreversível, coma não responsivo, ausência de sedação ou bloqueadores neuromusculares, temperatura corporal > 35°C, pressão arterial sistólica > 100 mmHg e ausência de distúrbios metabólicos ou endócrinos graves.

Qual o intervalo mínimo entre os dois exames clínicos para diagnóstico de morte encefálica em adultos?

Em pacientes adultos (idade > 2 anos), o intervalo mínimo entre os dois exames clínicos para o diagnóstico de morte encefálica é de 1 hora, conforme a legislação brasileira.

A hipernatremia impede a abertura do protocolo de morte encefálica?

Não, a hipernatremia, especialmente quando associada à poliúria (diabetes insipidus central), é frequentemente uma consequência da lesão cerebral grave e da morte encefálica, e não uma condição reversível que impeça a abertura do protocolo.

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