UNESC - Centro Universitário do Espírito Santo — Prova 2023
Adolescente, sexo feminino, 8 anos, é levado à emergência por cefaleia intensa, vômitos em jato há dois dias e febre (40°C) que não cede com antitérmicos. Exame físico: febril, sinais de irritação meníngea, escala de Glasgow de 15, Punção lombar: pleocitose, com 600 células/mm³, 19.000 hemácias/ mm3, com predomínio de linfo mononucleares; proteína: 45mg/dL; glicorraquia: 65mg/ dL (glicemia: 89mg/dL). Esse quadro clinico sugere:
LCR: Pleocitose linfomononuclear + glicorraquia normal + proteínas normais/levemente ↑ → Meningite Viral.
O perfil do líquor cefalorraquidiano (LCR) com pleocitose às custas de linfomononucleares, glicorraquia normal e proteínas normais ou discretamente elevadas, em um paciente com sinais de irritação meníngea e febre, é altamente sugestivo de meningite viral, mesmo com a presença de hemácias que podem indicar trauma de punção ou processo inflamatório.
O diagnóstico de meningite em pediatria é um desafio clínico que exige uma análise cuidadosa dos sintomas e, crucialmente, do líquor cefalorraquidiano (LCR). A diferenciação entre meningite bacteriana e viral é de suma importância, pois impacta diretamente a conduta terapêutica e o prognóstico do paciente. Residentes devem dominar a interpretação do LCR. O quadro clínico de cefaleia, vômitos, febre e sinais de irritação meníngea é comum a ambas as etiologias. No entanto, a análise do LCR fornece pistas decisivas. A pleocitose com predomínio de linfomononucleares, associada a uma glicorraquia normal e proteínas normais ou discretamente elevadas, é o padrão clássico da meningite viral. A presença de hemácias no LCR pode gerar confusão, mas deve ser interpretada no contexto global. Um trauma de punção é uma causa comum de hemácias e não deve desviar o diagnóstico de meningite viral se os outros parâmetros do LCR forem consistentes. A meningite bacteriana, por outro lado, apresentaria um perfil de LCR com pleocitose neutrofílica, hipoglicorraquia e hiperproteinorraquia acentuadas.
Na meningite bacteriana, o líquor tipicamente apresenta pleocitose neutrofílica (>1000 células/mm³), glicorraquia muito baixa (<40 mg/dL ou relação LCR/glicemia <0,4) e proteínas muito elevadas (>100 mg/dL). Na meningite viral, há pleocitose linfomononuclear (50-1000 células/mm³), glicorraquia normal e proteínas normais ou levemente elevadas.
No trauma de punção, as hemácias diminuem progressivamente nos tubos subsequentes da coleta, não há xantocromia (coloração amarelada do sobrenadante) e o LCR geralmente é claro após centrifugação. Na hemorragia subaracnoide, as hemácias são uniformes em todos os tubos, há xantocromia e o sobrenadante permanece amarelado.
Os agentes etiológicos mais comuns da meningite viral em crianças incluem enterovírus (o mais frequente), vírus do herpes simples (HSV), vírus da caxumba, arbovírus e adenovírus. A maioria dos casos é autolimitada e tem bom prognóstico.
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