Diagnóstico de Diabetes Mellitus Tipo 2 em Adolescentes

SUS-BA - Sistema Único de Saúde da Bahia — Prova 2022

Enunciado

Adolescente, 16 anos de idade, chega à UBS com quadro de poliúria há, aproximadamente, 40 dias. Refere fadiga frequente, o que atribui ao aumento de peso, durante a pandemia. Nega febre, disúria e outros sintomas. Ao exame, IMC: 29kg/m²; acima do 95° percentil; bom estado geral, eupneica, hidratada, afebril, corada. Apresenta eritema macular hiperemiado sob ambas as mamas, pruriginoso. O exame de urina I mostra: pH: 7,2; Densidade: de 1,01; Ausência de cetonas, bilirrubina, urobilinogênio, sangue e nitrito; presença de glicose ++; raros leucócitos e raras células epiteliais. Glicemia em jejum foi de 100mg/dL Indique o exame que permite melhor avaliar o diagnóstico associado dessa paciente.

Alternativas

  1. A) Cortisol matinal.
  2. B) Hemoglobina glicada. 
  3. C) Glicemia aleatória. 
  4. D) Triglicérides. 

Pérola Clínica

Poliúria + Obesidade + Glicosúria → Investigar DM2 com HbA1c ou TOTG, mesmo com glicemia de jejum normal.

Resumo-Chave

A glicemia de jejum isolada pode não detectar o diabetes em estágios iniciais ou quando há picos pós-prandiais significativos; a glicosúria indica que o limiar renal foi ultrapassado.

Contexto Educacional

O aumento da prevalência de obesidade infantil e na adolescência trouxe consigo um incremento nos casos de Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2) nesta faixa etária. O quadro clínico pode ser insidioso, muitas vezes confundido com o ganho de peso e fadiga típicos da puberdade ou mudanças de hábito. A presença de acantose nigricans e infecções fúngicas recorrentes (como o eritema intertriginoso sob as mamas mencionado) são pistas clínicas importantes de resistência insulínica e hiperglicemia crônica. Fisiopatologicamente, o DM2 no adolescente é mais agressivo do que no adulto, com um declínio mais rápido da função das células beta pancreáticas. O rastreamento deve ser iniciado em crianças com sobrepeso ou obesidade que possuam fatores de risco adicionais, como história familiar de DM2 ou sinais de resistência insulínica. A escolha da Hemoglobina Glicada como exame de seguimento é estratégica pela conveniência (não exige jejum rigoroso para coleta) e pela capacidade de captar o descontrole glicêmico que a glicemia de jejum isolada pode omitir.

Perguntas Frequentes

Por que solicitar Hemoglobina Glicada (HbA1c) neste caso?

A Hemoglobina Glicada é um marcador fundamental pois reflete a média das glicemias nos últimos 2 a 3 meses. Em adolescentes com obesidade (IMC > percentil 95) e sintomas clássicos como poliúria, a glicemia de jejum pode apresentar-se falsamente normal ou na faixa de pré-diabetes (100-125 mg/dL) devido à reserva pancreática residual, enquanto as glicemias pós-prandiais já atingem níveis patológicos. A presença de glicosúria sugere fortemente que a glicemia plasmática ultrapassou o limiar renal (aproximadamente 180 mg/dL) em algum momento do dia, tornando a HbA1c ou o Teste Oral de Tolerância à Glicose (TOTG) ferramentas diagnósticas superiores à glicemia de jejum isolada para confirmar o diagnóstico de Diabetes Mellitus conforme as diretrizes da ADA e SBD.

Como interpretar a glicosúria com glicemia de jejum de 100 mg/dL?

A glicosúria ocorre quando a concentração de glicose no filtrado glomerular excede a capacidade de reabsorção do túbulo proximal, o chamado limiar renal de glicose. Em um paciente com glicemia de jejum de 100 mg/dL (limite superior da normalidade), a presença de glicosúria ++ indica que, durante o período pós-prandial ou ao longo do dia, os níveis glicêmicos estão elevando-se significativamente acima de 180 mg/dL. Isso é característico da resistência insulínica grave associada à obesidade na adolescência, onde a secreção basal de insulina ainda consegue manter a glicemia de jejum controlada, mas falha em conter as excursões glicêmicas após as refeições. Portanto, a glicosúria é um sinal de alerta para hiperglicemia intermitente que exige investigação diagnóstica imediata.

Quais são os critérios diagnósticos para Diabetes Mellitus?

Segundo a American Diabetes Association (ADA), o diagnóstico de Diabetes Mellitus pode ser estabelecido por quatro critérios: 1) Glicemia de jejum ≥ 126 mg/dL; 2) Glicemia de 2 horas após TOTG com 75g de glicose ≥ 200 mg/dL; 3) Hemoglobina Glicada (HbA1c) ≥ 6,5%; ou 4) Glicemia aleatória ≥ 200 mg/dL em paciente com sintomas clássicos de hiperglicemia (poliúria, polidipsia, perda de peso). No caso apresentado, a paciente possui sintomas (poliúria e fadiga) e sinais indiretos (glicosúria e provável candidíase mamária manifestada pelo eritema macular), mas a glicemia de jejum de 100 mg/dL não fecha o diagnóstico, classificando-a inicialmente como pré-diabetes. A HbA1c é o próximo passo mais prático e validado para confirmar a patologia.

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