USP/HCFMUSP - Hospital das Clínicas da FMUSP (SP) — Prova 2024
Rafael, 17 anos, pardo, heterossexual, católico, vem à consulta médica referindo que está precisando de um antidepressivo ou de “ritalina” para sua falta de atenção ou que deve ser autista. Há 3 meses refere que tem estado mais triste, com sentimento de que não vai conseguir ser aprovado nas disciplinas da faculdade. Sente-se incompetente por não estar conseguindo estudar e não se concentrar. Não apresenta queixas anteriores durante a infância ou alterações no desenvolvimento. Tinha bom rendimento escolar até o Ensino Médio. Passou em quatro vestibulares e mudou-se de uma cidade pequena do interior de Goiás para iniciar a faculdade de Economia em São Paulo. Atualmente está morando na residência estudantil, dividindo quarto com outro estudante. Sua renda provém principalmente de uma bolsa de iniciação científica de 700 reais. Alimenta-se no Restaurante Universitário e recebe algum auxílio financeiro complementar da família de 500 reais. É o primeiro filho a cursar Ensino Superior. Considera desistir do curso que tanto desejou, acha que não é para ele, pois se percebe muito diferente dos seus colegas de turma, já que “eles costumam viajar para o exterior nas férias e frequentar determinados lugares em que sinto que não são para mim, na minha cidade não era assim com meus amigos”. Refere que em uma das aulas um professor comentou que “ele não está conseguindo acompanhar o curso porque deve ser cotista”. Rafael está muito preocupado, pois sua família tem feito todo o esforço financeiro para ele se manter em São Paulo. Considerando a história de vida de Rafael, assinale quais aspectos sociais podem auxiliar na compreensão de sua experiência de doença.
Sofrimento psíquico em universitários → considerar determinantes sociais (racismo, desigualdade, medicalização), não só patologia individual.
O caso de Rafael ilustra como fatores sociais como racismo (comentário 'cotista'), desigualdade econômica (renda, comparação com colegas) e a tendência à medicalização da vida (busca por 'antidepressivo' ou 'ritalina' para problemas sociais) são cruciais para a compreensão do sofrimento psíquico, que não deve ser reduzido a uma patologia individual.
A saúde mental é intrinsecamente ligada aos determinantes sociais da saúde, que são as condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem. O caso de Rafael, um estudante universitário pardo e de baixa renda, ilustra vividamente como fatores como racismo, desigualdade econômica e o fenômeno da medicalização da vida podem moldar a experiência de doença e o sofrimento psíquico. É crucial que profissionais de saúde reconheçam esses elementos para oferecer um cuidado integral e contextualizado. O racismo, manifestado pelo comentário pejorativo do professor, e a desigualdade econômica, evidenciada pela comparação com colegas mais abastados e pela pressão financeira familiar, geram estresse crônico e sentimentos de inadequação. Esses fatores podem levar a sintomas de tristeza, falta de concentração e desmotivação, que Rafael erroneamente tenta patologizar buscando diagnósticos como autismo ou TDAH e soluções farmacológicas. A medicalização da vida, onde problemas sociais são transformados em diagnósticos médicos, desvia a atenção das raízes estruturais do sofrimento. Para o manejo desses casos, é fundamental uma abordagem que vá além da prescrição de medicamentos. É necessário validar o sofrimento do paciente, explorar os fatores sociais e ambientais que contribuem para sua angústia e oferecer suporte psicossocial. Isso pode incluir encaminhamento para apoio psicológico, assistência social, programas de mentoria e grupos de apoio, além de advocacy para políticas que promovam equidade e combatam o racismo e a desigualdade. O objetivo é despatologizar o sofrimento e fortalecer a resiliência do indivíduo frente aos desafios sociais.
O racismo pode levar a estresse crônico, trauma, baixa autoestima, ansiedade e depressão devido a experiências de discriminação, microagressões e barreiras sistêmicas. Isso impacta diretamente o bem-estar psicológico e o acesso a oportunidades.
A medicalização da vida é a tendência de transformar problemas sociais, emocionais ou existenciais em condições médicas que requerem tratamento farmacológico. No caso de Rafael, buscar 'ritalina' ou 'antidepressivo' para dificuldades decorrentes de estressores sociais é um exemplo.
Considerar os determinantes sociais (como renda, educação, moradia, raça, gênero) permite uma compreensão mais completa do sofrimento do paciente. Isso evita diagnósticos equivocados e direciona intervenções mais eficazes, que podem incluir suporte social e psicoterapia, além de medicação.
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