UFRN/EMCM - Escola Multicampi de Ciências Médicas (RN) — Prova 2020
O médico de família e comunidade vai junto com a agente comunitária de saúde visitar a Dona Maria, de 101 anos. Ao revisar o prontuário, ele identifica a lista de problemas: hipertensão arterial controlada (costuma se manter em torno de 120-130 / 70-80 mmHg), insuficiência arterial periférica, gonartrose grave, imobilidade e dificuldade visual. Ela mora com um dos filhos, a nora e uma neta, que se revezam nos seus cuidados. Há uma filha e outro filho que moram próximos e também ajudam. Ela utiliza os seguintes medicamentos há muitos anos: enalapril 10 mg de manhã, ácido acetilsalicílico 100 mg no almoço, cilostazol 100 mg de 12 em 12 horas, sinvastatina 40 mg à noite, dipirona 500 mg de 6 em 6 horas quando tem dor e diazepam 5 mg à noite. Na visita, o médico verifica que Dona Maria caminha com auxílio de um andador, mas locomove-se somente dentro de casa, normalmente, entre seu quarto, a sala, que fica num mesmo ambiente junto da cozinha, e o banheiro, ao lado de seu quarto. A casa tem ainda outro quarto e outra sala menor. Ela se alimenta e dorme bem, é bem lúcida e orientada, tem a memória preservada. Queixa-se de dor no joelho, que alivia quando toma dipirona, e da sua dificuldade visual. Exceto pela dor no joelho, nega dor na perna e claudicação intermitente ao deambular. A filha diz que ela reclamava antigamente, quando era mais ativa e elas saíam para caminhar. Tinha indicação de cirurgia por catarata, mas não quis operar quando era mais nova. A casa é adaptada para evitar quedas, com barras no banheiro e sem tapetes. O médico conversa com ela em separado e discute a possibilidade de reduzir alguns de seus medicamentos. Apesar de ter os pulsos periféricos reduzidos, como ela não tem mais queixa de claudicação e tem sua mobilidade reduzida, ele considera retirar o cilostazol. Também pondera a suspensão de sinvastatina, visto que na idade dela o benefício é incerto, e de diazepam, já que ela tem dormido bem e ele pode aumentar o risco de queda. Dona Maria se mostra feliz com a ideia e diz que nunca gostou de tomar remédios. Assinale a alternativa que apresenta os próximos passos para realizar a desprescrição desses medicamentos no contexto da assistência domiciliar.
Desprescrição em idosos: envolver paciente e cuidadores, priorizar autonomia, considerar redução gradual para evitar efeitos adversos.
A desprescrição em pacientes idosos, especialmente em cuidados domiciliares, é uma prática essencial para reduzir a polifarmácia e seus riscos. É crucial envolver o paciente (respeitando sua autonomia) e seus cuidadores na decisão, além de considerar a redução gradual de certos medicamentos, como o cilostazol, para monitorar a resposta e evitar efeitos de retirada.
A desprescrição é um processo sistemático de redução ou interrupção de medicamentos que podem ser inadequados ou desnecessários, com o objetivo de gerenciar a polifarmácia e melhorar os resultados de saúde. Em pacientes idosos, a polifarmácia é um problema comum e está associada a um risco aumentado de eventos adversos, interações medicamentosas, quedas e hospitalizações. A assistência domiciliar oferece um ambiente propício para reavaliar a medicação, considerando o contexto funcional e social do paciente. No caso de Dona Maria, a desprescrição do cilostazol é pertinente, pois ela não apresenta mais claudicação intermitente e sua mobilidade é restrita ao ambiente doméstico, tornando o benefício do medicamento questionável e os riscos de efeitos adversos (como cefaleia, palpitações, diarreia) desproporcionais. A sinvastatina, em pacientes muito idosos e frágeis, pode ter um benefício incerto na prevenção primária e secundária, e sua suspensão deve ser ponderada individualmente. O diazepam, um benzodiazepínico, é um medicamento de alto risco em idosos devido ao potencial de sedação, confusão, aumento do risco de quedas e dependência, sendo a desprescrição recomendada se o paciente estiver dormindo bem sem ele. O processo de desprescrição deve ser colaborativo, envolvendo o paciente e seus cuidadores. A autonomia do paciente é primordial, e sua concordância é essencial. Os cuidadores desempenham um papel vital no monitoramento de quaisquer efeitos adversos ou recorrência de sintomas após a desprescrição. Além disso, a redução gradual de certos medicamentos, como o cilostazol, é uma estratégia segura para avaliar a necessidade contínua e minimizar os sintomas de retirada ou rebote, garantindo uma transição mais suave e segura para o paciente.
Os riscos incluem interações medicamentosas, aumento de efeitos adversos, quedas, declínio cognitivo, não adesão ao tratamento e aumento dos custos de saúde.
O médico deve discutir os potenciais benefícios e riscos da desprescrição com o paciente, respeitando sua autonomia. Em seguida, deve envolver os cuidadores para garantir o entendimento e o suporte na implementação das mudanças, monitorando de perto a resposta.
Medicamentos como benzodiazepínicos (diazepam), estatinas em idades avançadas sem benefício claro, inibidores da bomba de prótons de uso prolongado, e medicamentos para claudicação intermitente (cilostazol) quando o paciente não deambula mais, são alvos comuns de desprescrição.
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