Santa Casa de Belo Horizonte (MG) — Prova 2026
Criança de 5 anos de idade é internada para tratamento de febre e diarreia de 5 dias de evolução. Ao exame físico na ectoscopia, observado regular estado geral, hipocorada (3+/4+), desidratada (1+/4+), afebril, cabelos finos e quebradiços; aparelho cardiovascular: taquicárdica, pulsos periféricos cheios, tempo de enchimento capilar de 2 segundos, normotensa; aparelho respiratório: ausculta e frequência normais; aparelho digestivo: abdome plano, algo doloroso, sem defesa. Realizada aferição de peso e estatura, com peso/estatura e estatura/idade entre -2DP e - 3DP segundo NHCS, glicemia capilar normal. Sobre o quadro descrito, assinale a alternativa CORRETA:
Desnutrição grave + desidratação sem choque → Hidratação ORAL (ReSoMal) + Estabilização inicial.
O manejo da desnutrição aguda grave prioriza a estabilização clínica com hidratação oral lenta e tratamento de infecções, evitando expansões venosas agressivas que podem causar falência cardíaca.
A desnutrição aguda grave é uma emergência médica que exige uma abordagem sistemática para reduzir a mortalidade hospitalar. O 'Protocolo de 10 Passos' da OMS guia o médico desde a estabilização metabólica inicial até o acompanhamento pós-alta. A fisiopatologia envolve o conceito de 'reductive adaptation', onde os sistemas orgânicos operam em níveis mínimos de reserva. Na prática clínica, a diferenciação entre desidratação e choque é crucial. Sinais como tempo de enchimento capilar prolongado, pulsos débeis e alteração do nível de consciência direcionam para o uso de fluidos IV, mas sempre com monitoramento rigoroso. A introdução da dieta deve ser gradual para evitar a sobrecarga de solutos e a disfunção hepática/renal.
Em crianças com desnutrição aguda grave, a fisiologia cardiovascular e renal está adaptada a um estado de hipometabolismo e redução de massa muscular cardíaca. A infusão de fluidos intravenosos rápidos pode facilmente sobrecarregar o ventrículo esquerdo, levando a edema agudo de pulmão e insuficiência cardíaca congestiva. A via oral, utilizando o ReSoMal (solução de reidratação específica para desnutridos com menor teor de sódio e maior de potássio), permite uma absorção mais fisiológica e segura, sendo indicada sempre que o paciente não apresentar sinais inequívocos de choque séptico ou hipovolêmico grave.
O tratamento é dividido em três fases principais: Estabilização (dias 1-7), Transição e Reabilitação (semanas 2-6). Na fase de estabilização, o foco é tratar a hipoglicemia, hipotermia, desidratação, distúrbios eletrolíticos e infecções, além de iniciar a alimentação cautelosa (F-75). A fase de reabilitação foca no ganho ponderal rápido com fórmulas hipercalóricas (F-100 ou RUTF) e estimulação sensorial. Ignorar essa progressão e oferecer dietas hiperproteicas precocemente pode desencadear a síndrome de realimentação, uma complicação metabólica potencialmente fatal.
A desnutrição aguda grave é definida pela presença de pelo menos um dos seguintes critérios: peso para estatura (P/E) abaixo de -3 desvios-padrão, circunferência do braço (MUAC) menor que 115 mm em crianças de 6 a 59 meses, ou a presença de edema bilateral depressível (característico do Kwashiorkor). No caso clínico apresentado, a criança possui índices entre -2DP e -3DP, o que caracteriza desnutrição moderada a grave, mas os sinais clínicos de cabelos quebradiços e hipocromia reforçam a necessidade de seguir o protocolo de estabilização metabólica antes da recuperação nutricional agressiva.
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