UFMT Revalida - Universidade Federal de Mato Grosso — Prova 2019
Soledade, moradora do bairro Pinheiros do Céu, trouxe seu filho Mário de 3 anos para consultar no PSF do bairro. Relata que a criança está com diarreia há 6 dias, 3 a 4 episódios/dia, grande volume, sem muco ou sangramento, sem relatos de náuseas ou vômitos. Ela amamentou Mário até os 9 meses, amamentação exclusiva, cartão de vacinas completo. No exame clínico, a criança encontra-se desidratada, olhos fundos sem lágrimas e diurese diminuída; ao exame físico, apresenta abdômen distendido e hipertimpânico, RHA aumentado e indolor à palpação, a genitália perianal com presença de dermatite. No exame laboratorial de coprologia funcional: presença de substâncias redutoras, ausência de leucócitos e pH fecal 4,5. De acordo com o preconizado pelo Ministério da Saúde, qual a conduta terapêutica para esse caso?
Diarreia + desidratação grave (olhos fundos, diurese ↓) + pH fecal ácido/substâncias redutoras → intolerância à lactose, necessita hidratação IV.
A criança apresenta sinais de desidratação grave (olhos fundos, diurese diminuída) e achados de coprologia funcional (substâncias redutoras, pH fecal 4,5) que sugerem diarreia osmótica, provavelmente por intolerância à lactose secundária à lesão da mucosa intestinal pela diarreia prolongada. Nesses casos, a hidratação oral pode ser insuficiente ou ineficaz, indicando a necessidade de hidratação venosa e avaliação especializada.
A diarreia aguda é uma das principais causas de morbimortalidade em crianças menores de 5 anos. A avaliação do grau de desidratação é crucial para determinar a conduta terapêutica. O caso de Mário apresenta sinais claros de desidratação grave, como olhos fundos, ausência de lágrimas e diurese diminuída. Nesses casos, a hidratação oral, embora seja a primeira linha para desidratação leve a moderada, pode ser insuficiente ou contraindicada. Além da desidratação grave, os achados da coprologia funcional (substâncias redutoras e pH fecal 4,5) são altamente sugestivos de má absorção de carboidratos, especificamente intolerância à lactose secundária. A diarreia prolongada pode danificar as vilosidades intestinais, levando à deficiência transitória da lactase. Quando a lactose não é digerida, ela permanece no lúmen intestinal, atraindo água por osmose e sendo fermentada por bactérias, produzindo ácidos e gases, o que agrava a diarreia e causa distensão abdominal e fezes ácidas. De acordo com as diretrizes do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde, crianças com desidratação grave devem ser encaminhadas para hidratação venosa imediata em ambiente hospitalar. A reposição rápida de fluidos e eletrólitos por via intravenosa é essencial para reverter o choque e prevenir complicações. Após a estabilização, a dieta deve ser reintroduzida gradualmente, e em casos de intolerância à lactose, pode ser necessário o uso de fórmulas sem lactose por um período. O acompanhamento da diurese é um indicador importante da eficácia da hidratação.
Sinais de desidratação grave incluem letargia ou inconsciência, olhos muito fundos, ausência de lágrimas, boca e língua muito secas, sinal da prega cutânea muito lento (>2 segundos), pulsos fracos, enchimento capilar prolongado e diurese diminuída ou ausente.
A presença de substâncias redutoras (glicose, galactose, frutose) e um pH fecal ácido (<5,5) indica que carboidratos não foram digeridos e absorvidos no intestino delgado, sendo fermentados por bactérias no cólon, o que é característico da intolerância à lactose ou má absorção de carboidratos.
A hidratação venosa é indicada em crianças com desidratação grave, choque hipovolêmico, vômitos persistentes que impedem a hidratação oral, distensão abdominal grave com íleo paralítico, ou quando a hidratação oral falha após tentativas adequadas.
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