UNIRG - Universidade de Gurupi (TO) — Prova 2020
Mãe chega com sua filha de três anos nos braços ao pronto-socorro. A criança está prostrada, com pele fria, pulsos quase imperceptíveis, com bradicardia e frequência respiratória aumentada. O pediatra avalia a criança e constata tratar-se de desidratação de grau.
Pulsos débeis + bradicardia + pele fria em criança desidratada = Choque descompensado (Grave).
A desidratação grave manifesta-se com sinais de falência circulatória (choque), exigindo expansão volêmica imediata via Plano C para evitar óbito por hipovolemia.
A desidratação é uma das principais causas de morbimortalidade infantil no Brasil, frequentemente associada a quadros de gastroenterite aguda. A classificação correta do grau de desidratação (leve, moderada ou grave) é o pilar para a escolha da terapia de reidratação (Plano A, B ou C). O reconhecimento precoce dos sinais de má perfusão é crucial, pois a transição do choque compensado para o descompensado pode ser extremamente rápida em pacientes pediátricos. Fisiopatologicamente, a perda de fluidos reduz o volume intravascular, levando à diminuição do retorno venoso e do débito cardíaco. A resposta adrenérgica inicial tenta manter a pressão arterial através de vasoconstrição periférica e taquicardia. Quando esses mecanismos são superados, surgem a hipotensão (sinal tardio) e a bradicardia, configurando a emergência médica descrita no caso, onde a intervenção não pode ser retardada.
A desidratação grave, segundo a OMS e o Ministério da Saúde, é caracterizada pela presença de pelo menos dois dos seguintes sinais: letargia ou inconsciência, olhos fundos, incapacidade de beber ou beber muito mal, e o sinal da prega que desaparece muito lentamente (mais de 2 segundos). No contexto de emergência, a presença de sinais de choque, como pulsos radiais ausentes ou muito débeis, extremidades frias, cianose e bradicardia (sinal tardio de gravidade extrema em pediatria), classifica o quadro como desidratação grave com choque hipovolêmico, exigindo intervenção imediata com reposição volêmica parenteral (Plano C).
O Plano C é indicado para desidratação grave. Em crianças menores de 5 anos, a conduta padrão envolve a administração de líquidos intravenosos (preferencialmente Ringer Lactato ou Soro Fisiológico 0,9%). A fase de expansão rápida geralmente utiliza 20 mL/kg de peso, podendo ser repetida conforme a resposta clínica (estabilidade hemodinâmica, melhora do nível de consciência e diurese). Em menores de 1 ano, a expansão é mais lenta (30 mL/kg em 1 hora e 70 mL/kg em 5 horas). É fundamental a reavaliação contínua dos sinais vitais e da perfusão periférica durante todo o processo para evitar sobrecarga volêmica ou persistência do choque.
Diferente dos adultos, as crianças dependem fundamentalmente da frequência cardíaca para manter o débito cardíaco, já que possuem um volume sistólico relativamente fixo. Inicialmente, a desidratação causa taquicardia compensatória. Quando a criança evolui para bradicardia em um contexto de hipovolemia, isso indica que os mecanismos compensatórios falharam e o miocárdio está sofrendo por hipóxia e acidose grave. É um sinal iminente de parada cardiorrespiratória. Portanto, a bradicardia no choque hipovolêmico pediátrico nunca deve ser vista como normalidade, mas sim como um estágio terminal de choque descompensado.
Responda esta e mais de 150 mil questões comentadas no MedEvo — a plataforma de residência médica com IA.
Responder questão no MedEvo