CERMAM - Comissão Estadual de Residência Médica do Amazonas — Prova 2015
Raquel fez seu pré-natal adequadamente e sem intercorrências. Com 36 semanas apresentou dor abdominal intensa, sangramento em pequena quantidade vermelho escuro que o acompanhante referiu ser de pequena monta. Ao exame de admissão, estava hipocorada +++/4+, porém com pulso cheio, frequência cardíaca 60 bpm, útero endurecido e batimento cardíaco fetal de 140 bpm. Aproximadamente 40 minutos após a admissão, a paciente entrou em estado de choque. Como se explica o fato do pulso estar normal e em pouco tempo a paciente estar em choque?
DPP: sangramento oculto + útero endurecido + pulso normal inicial → choque súbito (pulso de Boero).
O Descolamento Prematuro de Placenta (DPP) pode apresentar sangramento oculto retroplacentário, levando a uma subestimação da perda sanguínea. O "pulso de Boero" descreve a manutenção de um pulso normal e cheio, mesmo com anemia e hipovolemia significativas, mascarando a gravidade real da hemorragia até a descompensação súbita.
O Descolamento Prematuro de Placenta (DPP) é uma emergência obstétrica grave, caracterizada pela separação da placenta da parede uterina antes do nascimento do feto, após a 20ª semana de gestação. Sua incidência varia, mas é uma das principais causas de hemorragia no terceiro trimestre, associada a alta morbimortalidade materna e perinatal. A compreensão de seus sinais e a rápida intervenção são cruciais para o residente de obstetrícia. A fisiopatologia envolve frequentemente a ruptura de vasos deciduais, levando à formação de um hematoma retroplacentário. Este hematoma pode se expandir, comprimindo a placenta e comprometendo a troca materno-fetal, além de causar dor intensa e hipertonia uterina. O sangramento pode ser visível (externo) ou oculto (retido atrás da placenta), o que dificulta a avaliação da perda sanguínea real. O "pulso de Boero" é um fenômeno compensatório onde a vasoconstrição periférica mantém a pressão arterial e o pulso aparentemente normais, mesmo com hipovolemia significativa, até que a descompensação seja abrupta e grave. A conduta no DPP é emergencial e visa estabilizar a mãe e interromper a gestação. Isso inclui acesso venoso calibroso, reposição volêmica agressiva, monitorização hemodinâmica e fetal contínua, e preparo para transfusão sanguínea. A via de parto preferencial é a cesariana, especialmente se houver sofrimento fetal ou instabilidade materna. Complicações como coagulopatia de consumo (CID) e insuficiência renal aguda são riscos significativos e devem ser ativamente gerenciadas.
Os sinais clássicos incluem dor abdominal súbita e intensa, sangramento vaginal escuro (que pode ser discreto ou ausente se o sangramento for oculto), hipertonia uterina (útero endurecido) e sofrimento fetal.
O pulso de Boero é a manutenção de um pulso cheio e com frequência normal, mesmo na presença de hemorragia significativa e anemia, devido à vasoconstrição compensatória. Ele é relevante porque pode mascarar a gravidade da perda sanguínea no DPP, levando a uma falsa sensação de estabilidade antes do choque.
A conduta inicial é a estabilização hemodinâmica da mãe (acesso venoso, hidratação, transfusão se necessário), monitorização fetal contínua e interrupção imediata da gravidez, geralmente por cesariana, devido ao risco de sofrimento fetal e coagulopatia materna.
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