UNESP/HCFMB - Hospital das Clínicas de Botucatu (SP) — Prova 2025
Mulher de 45 anos com queixa de astenia e edema generalizado há 6 meses, com piora importante há uma semana. Refere cirurgia bariátrica há 10 anos, sem suplementações regulares por questões familiares. Após a cirurgia, apresenta evacuações mais pastosas e com odor fétido. Há 8 meses apresentou episódio de cegueira, que foi revertido após suplementação adequada. EF: IMC 35,6 kg/m², edema generalizado 3+/4, FC: 82 bpm, FR: 15 irpm, PA: 100 x 60 mmHg. Exames laboratoriais: Hb: 7,2 g/dL; anemia normocítica e normocrômica, albumina: 1,3 g/L. A técnica utilizada na cirurgia bariátrica foi a:
Hipoalbuminemia grave + cegueira noturna + esteatorreia pós-bariátrica = Derivação Biliopancreática.
Técnicas predominantemente disabsortivas (como a derivação biliopancreática) predispõem a desnutrição proteica grave e deficiências de vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K) a longo prazo.
As cirurgias bariátricas são classificadas em restritivas, mistas ou predominantemente disabsortivas. A derivação biliopancreática (Scopinaro) envolve uma gastrectomia distal e o desvio das secreções biliares e pancreáticas para o íleo terminal, deixando um canal comum de apenas 50-100 cm para absorção. Isso resulta em uma má absorção proposital de gorduras e proteínas. Pacientes que abandonam o seguimento nutricional e a suplementação desenvolvem quadros graves de desnutrição proteico-calórica, anemia multifatorial e avitaminoses. O diagnóstico diferencial com outras técnicas baseia-se na gravidade da hipoalbuminemia e na presença de esteatorreia, que são marcas registradas do componente disabsortivo extremo.
A derivação biliopancreática (técnicas de Scopinaro ou Duodenal Switch) é uma cirurgia predominantemente disabsortiva. Ela cria um canal comum muito curto onde o quimo alimentar se mistura com as secreções biliares e pancreáticas. Isso reduz drasticamente a absorção de gorduras e, consequentemente, das vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K). A vitamina A é essencial para a formação da rodopsina na retina; sua deficiência leva à xeroftalmia e cegueira noturna. O relato de cegueira revertida com suplementação é um marcador clássico de má absorção severa de gorduras típica desta técnica cirúrgica.
A hipoalbuminemia (neste caso extrema, 1,3 g/L) decorre da desnutrição proteica grave. Nas técnicas disabsortivas, a digestão e absorção de proteínas são severamente prejudicadas devido ao desvio do intestino delgado. Sem albumina suficiente, a pressão oncótica do plasma diminui drasticamente, levando ao extravasamento de fluido para o espaço intersticial, resultando em edema generalizado (anasarca). Este quadro é muitas vezes referido como uma forma de 'Kwashiorkor iatrogênico' do adulto pós-bariátrico, exigindo suporte nutricional intensivo e, por vezes, reversão da cirurgia.
Embora o Bypass em Y de Roux (Gastroplastia com derivação) tenha um componente disabsortivo, ele é primariamente restritivo. Complicações como anasarca por hipoalbuminemia e deficiências vitamínicas profundas (como a cegueira por vit. A) são raras se houver o mínimo de seguimento. Já na Derivação Biliopancreática, a esteatorreia (fezes pastosas e fétidas) e a desnutrição proteica são riscos inerentes e frequentes devido à exclusão de grande parte do intestino delgado do trânsito alimentar, tornando a suplementação rigorosa e vitalícia absolutamente obrigatória.
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