Dengue Pediátrica: Sinais de Alarme e Manejo Urgente

UFMT/HUJM - Hospital Universitário Júlio Müller - Cuiabá (MT) — Prova 2023

Enunciado

Paciente, 8 anos de idade, com quadro de febre há 4 dias, chegando a 39ºC, intermitente, com necessidade de uso de antipirético a cada 6 a 8 horas. Família procurou pronto atendimento no primeiro dia do quadro e, por não haver outros sintomas associados, orientada retornar em 72 horas do início do quadro ou antes, se aparecessem novos sintomas. Família retorna no 4º dia de febre, pela persistência da mesma associada à tosse seca esporádica e dor torácica, além de queixa de hiporexia, dor no corpo de caráter inespecífico, cefaleia frontal e aparecimento de náuseas e vômitos, cerca de 2 a 3 episódios no dia. Ao ser examinada, paciente apresenta estabilidade hemodinâmica e do ponto de vista respiratório murmúrio vesicular abolido na base esquerda, com macicez à percussão, além de dor à palpação profunda do hipocôndrio direito, sem descompressão súbita dolorosa, o abdome é flácido. O plantonista solicita, então, raio-X de tórax, que evidencia opacidade na base esquerda, com apagamento do seio costofrênico ipsilateral. Solicita exames laboratoriais cujos resultados são: Hemoglobina 11 g/dL, Hematócrito 40%, Leucócitos 4.500/mm³ (Neutrófilos 25%, Eosinófilos 4%, Basófilos 1%, Linfócitos 60%, Monócitos 10%), PCR 20 mg/dL (VR até 5 mg/dL), Plaquetas 90.000/m³. Houve, após coleta dos exames, aparecimento de petéquias no local da punção. Assinale a afirmativa que apresenta provável diagnóstico e conduta.

Alternativas

  1. A) Trata-se de provável quadro de dengue classe C. Paciente deve receber expansão volêmica e sintomáticos.
  2. B) Trata-se de provável caso de meningococcemia. Paciente deve receber expansão volêmica, coleta de hemocultura e início de antibioticoterapia na primeira hora.
  3. C) Trata-se de provável púrpura trombocitopênica idiopática desencadeada por infecção de vias áreas. Paciente deve receber imunoglobulina.
  4. D) Trata-se de provável sepse de foco pulmonar complicada com derrame pleural. Paciente deve receber antibioticoterapia e ser submetida à toracocentese de alívio.

Pérola Clínica

Dengue com sinais de alarme (dor abdominal, vômitos persistentes, derrame pleural, plaquetopenia) → Classe C, requer expansão volêmica.

Resumo-Chave

O quadro clínico da dengue em crianças pode ser atípico, mas a presença de febre prolongada, dor abdominal intensa, vômitos persistentes, derrame pleural e plaquetopenia com hemoconcentração (mesmo que o hematócrito ainda esteja "normal" em valores absolutos, a plaquetopenia e os sinais de extravasamento são cruciais) são sinais de alarme que classificam o paciente como dengue com sinais de alarme (Classe C), necessitando de hidratação venosa.

Contexto Educacional

A dengue é uma arbovirose de grande impacto na saúde pública brasileira, e sua apresentação em crianças pode ser particularmente desafiadora devido à inespecificidade dos sintomas iniciais. A classificação da dengue é fundamental para guiar o manejo e prevenir desfechos graves. Pacientes com dengue são classificados em grupos A, B, C e D, sendo o grupo C (dengue com sinais de alarme) e D (dengue grave) os que requerem maior atenção e intervenção imediata. Os sinais de alarme indicam extravasamento plasmático e risco de choque, incluindo dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, hipotensão postural, letargia, hepatomegalia, sangramentos de mucosas, e acúmulo de líquidos em cavidades (derrame pleural, ascite). Laboratorialmente, a plaquetopenia (<100.000/mm³) e a hemoconcentração (aumento do hematócrito em 20% ou mais em relação ao basal ou a valores de referência) são marcadores importantes. No caso apresentado, a febre prolongada, dor torácica, murmúrio vesicular abolido com macicez (sugerindo derrame pleural), náuseas/vômitos, plaquetopenia e petéquias no local da punção são claros sinais de alarme, classificando o quadro como dengue com sinais de alarme (Classe C). A conduta para dengue com sinais de alarme envolve a rápida reposição volêmica com cristaloides isotônicos (soro fisiológico 0,9%) para reverter o extravasamento plasmático e prevenir o choque. A monitorização contínua dos sinais vitais, débito urinário, nível de consciência e hematócrito é essencial. O reconhecimento precoce desses sinais e a intervenção adequada são cruciais para evitar a progressão para a dengue grave e reduzir a mortalidade, sendo um ponto chave para a prática do residente.

Perguntas Frequentes

Quais são os principais sinais de alarme da dengue em crianças?

Os principais sinais de alarme incluem dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, sangramentos de mucosas, letargia/irritabilidade, hepatomegalia > 2 cm, derrame pleural/ascite, e queda abrupta da temperatura com sudorese e hipotensão.

Como a plaquetopenia e o derrame pleural se relacionam com a gravidade da dengue?

A plaquetopenia (plaquetas < 100.000/mm³) e o derrame pleural são sinais de extravasamento plasmático, indicando um aumento da permeabilidade capilar, que pode levar ao choque. Ambos são critérios para classificar a dengue como "com sinais de alarme".

Qual a conduta inicial para um paciente pediátrico com dengue e sinais de alarme?

A conduta inicial é a expansão volêmica com cristaloides (soro fisiológico 0,9%) em bolus, monitorando rigorosamente a resposta clínica e hemodinâmica, além de sintomáticos para febre e dor.

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