Demência Frontotemporal: Manejo Comportamental em Idosos

SURCE - Sistema Único de Residência do Ceará — Prova 2023

Enunciado

Seu Edinaílson, de 60 anos, é trazido para consulta por seus dois filhos: Edberto e Ednardo. Ele vem em cadeira de rodas, mas está com punhos e tornozelos contidos. Segue o relato dos filhos - Papai sempre foi um mecânico de referência aqui no bairro, mas tem dois anos que as coisas desandaram. A gente foi vendo ele ficar cada vez mais magro e não entendia o que estava acontecendo. Depois, o salário começou a diminuir, mas quando a gente perguntava, ele ficava muito irritado. Levamos numa clínica popular, onde ele fez uma bateria de exames para diabetes, pressão, hepatite e até sífilis e HIV, mas nunca deu nada. Ele começou a perder o prazo dos serviços e começou a fazer os serviços pela metade, mas o pior foi que ele começou a destratar todo mundo. Ele sempre foi uma pessoa calma, mas começou a falar palavrão e querer bater nos outros. A gente só foi saber disso depois de um ano, porque ele chegou em casa machucado porque tinha se envolvido em briga. A gente foi na oficina e o dono falou que ele não tinha mais condições de trabalhar. Ele disse que papai começou a urinar no chão do banheiro, que não comia mais e que não se vestia mais direito. Levamos ele para cuidar em casa, mas ele estava muito teimoso e briguento. Não queria comer, não queria tomar banho e não queria se vestir. Estamos levando do jeito que dá, mas quando ele começou a se urinar e se sujar, a gente viu que precisava vir pedir ajuda de novo. Ele não está mais sabendo mexer em dinheiro, não toma mais banho sem ajuda e agora começou a engasgar com a comida. Ele consegue andar e tem força, mas a gente teve que amarrar ele nessa cadeira, porque ele fica querendo pegar nas mulheres, é horrível. Ele lembra da gente, lembra da nossa mãe, lembra dos irmãos, mas a gente não reconhece mais ele.Os filhos trouxeram exames laboratoriais recentes. Não havia alteração endócrino-metabólica significativa, nem hidroeletrolítica ou autoimune. Os exames de rastreamento de ISTs (HIV, sífilis e hepatites) também estavam sem alterações significativas. Ao se aproximar para realizar o exame físico de Seu Edinaílson, ele se mostrava calmo, mas pouco cooperativo. Ele soube dizer o nome completo e reconheceu os filhos. Estava desorientado em espaço. O exame físico não revelou alterações clínicas significantes.O manejo farmacológico de sintomas neurocognitivos e comportamentais nas síndromes demenciais se dá geralmente com antidepressivos e antipsicóticos. No entanto, é preciso atenção ao uso de psicofármacos em idosos devido a potenciais efeitos adversos. Considerando o quadro clínico de Seu Edinaílson, assinale a alternativa que traz uma opção de tratamento antidepressivo adequado em idosos.

Alternativas

  1. A) Diazepam.
  2. B) Trazodona.
  3. C) Amitriptilina.
  4. D) Tranilcipromina.

Pérola Clínica

Demência frontotemporal (variante comportamental) → Trazodona é opção segura para sintomas comportamentais e depressivos em idosos, com menos efeitos anticolinérgicos.

Resumo-Chave

O quadro clínico de Seu Edinaílson, com desinibição social, agressividade, negligência de higiene e disfagia, sem alterações cognitivas de memória proeminentes inicialmente, é altamente sugestivo de Demência Frontotemporal, variante comportamental. A Trazodona é um antidepressivo com perfil de segurança favorável em idosos para o manejo de sintomas comportamentais e depressivos, com menor risco de efeitos anticolinérgicos e sedação excessiva em comparação a outras opções.

Contexto Educacional

A Demência Frontotemporal (DFT) é um grupo de doenças neurodegenerativas que afetam predominantemente os lobos frontal e temporal do cérebro, sendo a variante comportamental (DFTvc) a mais comum. Caracteriza-se por alterações progressivas de personalidade, comportamento e cognição, com preservação relativa da memória episódica e habilidades visuoespaciais no início. A idade de início é tipicamente mais precoce do que na doença de Alzheimer, geralmente entre 45 e 65 anos, mas pode ocorrer em idosos, como no caso apresentado. A fisiopatologia envolve a atrofia dos lobos frontal e temporal, com acúmulo de proteínas anormais (tau, TDP-43) nos neurônios. O diagnóstico é clínico, baseado nos critérios diagnósticos, e pode ser apoiado por neuroimagem (ressonância magnética) que mostra atrofia focal. O manejo é desafiador e foca no controle dos sintomas comportamentais e psiquiátricos, pois não há tratamento curativo. A abordagem não farmacológica, como modificações ambientais e rotinas estruturadas, é fundamental. No manejo farmacológico, a escolha de antidepressivos em idosos com demência exige cautela devido à maior sensibilidade a efeitos adversos. A Trazodona é frequentemente utilizada para tratar insônia, agitação e sintomas depressivos em pacientes com demência, devido ao seu perfil de segurança relativamente favorável, com menor risco de efeitos anticolinérgicos e extrapiramidais em comparação com outros agentes. Outros antidepressivos, como os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), também podem ser considerados, mas sempre com monitoramento rigoroso. É crucial evitar benzodiazepínicos e antidepressivos tricíclicos devido aos riscos de sedação, quedas e piora cognitiva.

Perguntas Frequentes

Quais são as características clínicas da Demência Frontotemporal variante comportamental?

A Demência Frontotemporal variante comportamental é caracterizada por mudanças progressivas no comportamento e personalidade, como desinibição social, apatia, perda de empatia, comportamentos repetitivos e compulsivos, alterações na dieta e higiene pessoal. Distúrbios de linguagem e memória podem ser menos proeminentes no início.

Por que a Trazodona é considerada uma opção adequada para idosos com demência?

A Trazodona é um antidepressivo com propriedades sedativas que pode ser útil para insônia e agitação em idosos com demência. Possui um perfil de efeitos adversos mais favorável em comparação com outros antidepressivos, com menor risco de efeitos anticolinérgicos, o que é crucial em pacientes idosos e com comprometimento cognitivo.

Quais psicofármacos devem ser evitados ou usados com cautela em idosos com demência?

Benzodiazepínicos (ex: diazepam) e antidepressivos tricíclicos (ex: amitriptilina) devem ser evitados devido ao risco aumentado de sedação, quedas, confusão, delirium e piora cognitiva. Antipsicóticos devem ser usados com cautela e apenas para sintomas graves e refratários, devido ao risco de eventos adversos cardiovasculares e cerebrovasculares.

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