Seletividade Alimentar e Risco de Anemia Ferropriva Infantil

HMMG - Hospital e Maternidade Municipal de Guarulhos (SP) — Prova 2025

Enunciado

Criança de 8 anos de idade comparece à consulta médica acompanhada pelos pais. Nasceu de parto cesáreo a termo, adequado para idade gestacional. Não foi amamentada. A introdução alimentar foi iniciada aos 5 meses de idade, na forma de caldo com vários legumes batidos junto. Na transição de textura, começou a apresentar recusa de alguns grupos específicos de alimentos, como feijão, carne vermelha, legumes e frutas. Os pais compareceram na primeira consulta, ambos têm consciência do erro alimentar no primeiro ano de vida e estão abertos à orientação sobre como melhorar a aceitação de variedades da criança. A rotina alimentar atual da criança é a seguinte: de manhã, come pão de forma puro de uma marca específica sem acompanhamento (duas fatias); durante a manhã, são oferecidas frutas, porém a criança só aceita banana prata; no almoço, come arroz (quatro colheres de sopa), batata frita e frango; à tarde, come pão de forma ou bisnaguinha (de uma marca específica); o jantar é igual ao almoço; antes de dormir, toma um composto lácteo específico. Não aceita alimentos novos, nem chega a provar porque não gosta da aparência. A criança é bastante sociável e faz amizade com muita facilidade. Na escola, tem excelente aproveitamento cognitivo. Tem rejeição pelas aulas de artes (como tintas e massinhas de modelar) e de música. Não gosta de pisar em terrenos heterogêneos, como grama e areia. À antropometria, a criança está no escore Z 2,3 de estatura e 1,9 de IMC. Qual é o maior risco nutricional na criança apresentada no caso clínico?

Alternativas

  1. A) Desnutrição proteico calórica.
  2. B) Desnutrição somente proteica.
  3. C) Carência de ferro.
  4. D) Carência de magnésio.

Pérola Clínica

Dieta infantil restritiva, rica em carboidratos e laticínios, mas pobre em carnes e leguminosas → alto risco de deficiência de ferro, mesmo com sobrepeso.

Resumo-Chave

A seletividade alimentar em crianças, especialmente com dietas baseadas em alimentos processados, pães e laticínios ("dieta branca"), cria um risco significativo para deficiência de ferro. O excesso de peso não exclui a possibilidade de carências de micronutrientes.

Contexto Educacional

A seletividade alimentar é uma queixa comum nos consultórios de pediatria, variando de uma fase transitória do desenvolvimento a um transtorno alimentar grave. É caracterizada pela recusa alimentar, ingestão de uma variedade limitada de alimentos e aversão a experimentar novos itens. Embora muitas crianças superem essa fase, um padrão restritivo persistente pode levar a importantes consequências nutricionais. O principal risco em dietas altamente seletivas, como a descrita no caso, é a deficiência de micronutrientes, mesmo que a ingestão calórica seja suficiente para manter ou até exceder o peso ideal. A dieta da criança, rica em pão, batata, frango e compostos lácteos, é notoriamente pobre nas principais fontes de ferro, como carne vermelha e leguminosas (feijão). O ferro é essencial para a produção de hemoglobina e para o desenvolvimento neurológico, e sua carência é a principal causa de anemia na infância, podendo levar a prejuízos cognitivos e de desenvolvimento. É um erro comum associar desnutrição apenas à baixo peso. Uma criança com sobrepeso ou obesidade pode ter uma dieta de baixa qualidade nutricional, resultando na coexistência de excesso de calorias e carência de micronutrientes essenciais. A abordagem deve ser ampla, investigando não apenas o padrão alimentar, mas também possíveis transtornos sensoriais ou comportamentais subjacentes, como o Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo (TARE). A avaliação laboratorial para deficiência de ferro (ferritina, saturação de transferrina) é mandatória nesses casos.

Perguntas Frequentes

Quais alimentos em uma dieta infantil aumentam o risco de deficiência de ferro?

Uma dieta baseada em carboidratos refinados (pães, massas, biscoitos), laticínios em excesso (que podem diminuir a absorção de ferro) e pobre em fontes de ferro heme (carne vermelha, vísceras) e não-heme (feijão, lentilha, vegetais verde-escuros) aumenta significativamente o risco.

Qual a conduta diante de uma criança com alta seletividade alimentar e sobrepeso?

A conduta deve ser multidisciplinar, envolvendo pediatra, nutricionista e, se houver suspeita de transtornos sensoriais (como no caso), psicólogo e terapeuta ocupacional. É fundamental realizar uma triagem laboratorial para deficiências de micronutrientes, como hemograma completo, ferritina e índice de saturação da transferrina.

Como diferenciar seletividade alimentar fisiológica de um transtorno alimentar?

A seletividade fisiológica é uma fase comum na primeira infância, mas geralmente não leva a comprometimento nutricional ou psicossocial. O Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo (TARE) envolve restrições severas que causam deficiências nutricionais significativas, perda de peso ou falha em atingir o ganho esperado, e interferência no funcionamento psicossocial.

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