Demência Avançada: Manejo da Alimentação no Fim da Vida

USP/HCFMUSP - Hospital das Clínicas da FMUSP (SP) — Prova 2022

Enunciado

Homem, 82 anos de idade, acamado há 10 anos por demência vascular após episódio de AVC isquêmico extenso. É totalmente dependente para as atividades básicas da vida diária e não contactua com as pessoas há cerca de 1 ano. É cuidado pela filha. Há 2 anos apresenta disfagia para sólidos e há 6 meses para líquidos. Comparece ao Pronto-Socorro com história de queda do estado geral e recusa da alimentação via oral há 3 dias. No atendimento inicial, apresentava-se em mau estado geral, descorado ++/4+, desidratado +++/+4, com roncos de transmissão, FR 30 irpm, oximetria sem captura, com respiração ruidosa, extremidades frias e mal perfundidas, FC 130 bpm e PA 72 x 40 mmHg. A equipe da sala de emergência aborda a filha sobre a compreensão do quadro atual e ela entende que o pai está próximo ao final da vida e não deseja que ele sofra, mas está muito preocupada por ele não estar conseguindo comer. Qual é a conduta com relação à alimentação nesta fase?

Alternativas

  1. A) Passar sonda nasoenteral para alimentação enteral.
  2. B) Introduzir soro de expansão e manutenção.
  3. C) Introduzir dieta assistida por via oral.
  4. D) Manter o paciente de jejum e sem soro.

Pérola Clínica

Demência avançada + disfagia + fim de vida → Jejum e conforto, evitar intervenções invasivas.

Resumo-Chave

Em pacientes com demência avançada e no fim da vida, a recusa alimentar e a disfagia são comuns. A alimentação e hidratação artificiais não prolongam a vida, não melhoram o conforto e aumentam o risco de complicações como pneumonia aspirativa. O foco deve ser no conforto e na dignidade do paciente.

Contexto Educacional

Os cuidados paliativos em pacientes com demência avançada são cruciais para garantir dignidade e conforto no fim da vida. A demência vascular, como no caso, é uma condição progressiva que leva à dependência total e, eventualmente, à incapacidade de se alimentar. A compreensão de que a recusa alimentar e a disfagia são eventos naturais no processo de morrer é fundamental. Nesses estágios avançados, a nutrição e hidratação artificiais, como sondas nasoenterais ou soros, não demonstram prolongar a vida nem melhorar a qualidade de vida. Pelo contrário, podem aumentar o risco de complicações como pneumonia aspirativa, úlceras de pressão e desconforto. A decisão de não intervir agressivamente, focando no manejo de sintomas e no conforto, é uma prática baseada em evidências e princípios éticos. A comunicação com a família é vital, explicando que a "fome" e a "sede" percebidas são diferentes no contexto terminal e que o foco é aliviar o sofrimento. A conduta correta envolve manter o paciente em jejum, com higiene oral rigorosa para conforto da boca seca, e manejo de outros sintomas como dor e dispneia, sempre respeitando a autonomia e os desejos previamente expressos ou inferidos do paciente.

Perguntas Frequentes

Quais são os sinais de que um paciente com demência está no fim da vida?

Sinais incluem declínio funcional progressivo, disfagia grave, recusa alimentar, infecções recorrentes, perda de peso significativa e incapacidade de se comunicar.

Por que a alimentação artificial não é recomendada em demência avançada terminal?

A alimentação artificial não prolonga a vida, não previne pneumonia aspirativa e pode causar desconforto, agitação e necessidade de contenção, sem benefício comprovado na qualidade de vida.

Como diferenciar a desidratação terminal da desidratação tratável?

A desidratação terminal é parte do processo fisiológico de morte, e a hidratação agressiva não reverte o quadro, podendo causar sobrecarga hídrica. O foco é no conforto e na boca seca.

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