SES-DF - Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal — Prova 2022
Uma paciente de 65 anos de idade compareceu à consulta com queixa de polidipsia, polifagia, poliúria e perda ponderai de 5 kg nos últimos três meses. Queixa-se também de humor deprimido, anedonia e avolia. Tabagista, possui diagnósticos de hipertensão arterial sistêmica (HAS), doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e depressão. Faz uso de amitriptilina 25 mg à noite, enalapril 10 mg, 2 vezes ao dia, hidroclorotiazida 25 mg, 1 vez ao dia e salbutamol inalatório sob demanda. Ao exame físico apresenta mancha hiperpigmentada em região de dobra cervical, aveludada à palpação. Observou-se PA =160 mmHg x 110 mmHg em ambos os membros superiores. Foi realizada medida de HGT, com resultado de 320 mg/dL. Com base nesse caso clínico e nos conhecimentos médicos correlatos, julgue o item a seguir.E possível já estabelecer o diagnóstico de diabetes mellitus nessa paciente, visto que apresenta glicose, ao acaso, maior ou igual a 200 mg/dL e possui sintomas inequívocos de hiperglicemia.
Glicemia ≥ 200 + sintomas clássicos = DM; mas cuidado com fatores confundidores e medicações.
Embora a glicemia ao acaso ≥ 200 mg/dL com sintomas seja critério diagnóstico, a presença de drogas hiperglicemiantes e a estabilidade da paciente podem exigir confirmação laboratorial.
O diagnóstico de Diabetes Mellitus (DM) fundamenta-se em critérios laboratoriais rigorosos. A presença de acantose nigricans sugere resistência insulínica, reforçando a suspeita clínica. No entanto, a interpretação de uma glicemia ao acaso deve ser feita com cautela quando o paciente apresenta fatores que podem elevar agudamente a glicose. Neste caso, a paciente utiliza hidroclorotiazida e amitriptilina, ambas associadas à hiperglicemia. Além disso, os sintomas depressivos podem mimetizar a astenia do diabetes. Portanto, para um diagnóstico robusto e início de tratamento crônico, as diretrizes sugerem a confirmação com exames de jejum ou HbA1c, garantindo que a alteração não seja um fenômeno transitório ou medicamentoso.
Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, o diagnóstico pode ser estabelecido por: glicemia de jejum ≥ 126 mg/dL, hemoglobina glicada (HbA1c) ≥ 6,5%, ou glicemia de 2 horas após sobrecarga de 75g de glicose (TOTG) ≥ 200 mg/dL. Além disso, em pacientes com sintomas inequívocos de hiperglicemia (poliúria, polidipsia, polifagia e perda de peso), uma glicemia ao acaso ≥ 200 mg/dL também é considerada diagnóstica. É importante que os exames alterados sejam repetidos para confirmação, exceto na presença de sintomas inequívocos ou crise hiperglicêmica franca.
Diversas classes de medicamentos podem elevar os níveis glicêmicos e mimetizar ou agravar o diabetes. Os diuréticos tiazídicos, como a hidroclorotiazida, podem reduzir a secreção de insulina e aumentar a resistência periférica, especialmente em doses mais altas. Antidepressivos tricíclicos, como a amitriptilina, também estão associados a alterações no metabolismo da glicose e ganho de peso. Além disso, o uso de beta-2 agonistas (salbutamol) e o estresse crônico de doenças como a DPOC ou hipertensão descontrolada podem contribuir para estados de hiperglicemia reativa.
Embora a paciente apresente glicemia de 320 mg/dL e sintomas, o diagnóstico definitivo pode ser questionado porque os sintomas relatados (anedonia, avolia) são inespecíficos e podem ser da depressão, e a hiperglicemia pode ser secundária ao uso de hidroclorotiazida e amitriptilina, ou a um estado de descompensação aguda de suas outras patologias (HAS e DPOC). Em pacientes com múltiplas comorbidades e medicações interferentes, a SBD recomenda cautela e a realização de testes confirmatórios em condições basais de estabilidade.
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