Crise Tireotóxica: Reconhecimento e Manejo na Emergência

FMJ - Faculdade de Medicina de Jundiaí - Hospital Universitário (SP) — Prova 2026

Enunciado

Um homem de 38 anos de idade, com sinusite crônica e sem mais patologias, chegou ao departamento de emergência com quadro de febre alta (39,5 ℃), sudorese intensa, agitação psicomotora, vômitos recorrentes e dor abdominal há 24 horas. No exame, apresentou taquicardia (132 bpm), pressão arterial 110x60 mmHg, confusão mental e tremores finos nas mãos. Estava com boa perfusão periférica. O ECG mostrou fibrilação atrial de alta resposta ventricular. O exame físico resultou em contexto sem lesões cutâneas, sem sopros ou outras alterações dignas de nota. Não havia outros sinais de infecção evidente, de uso de drogas e medicamentos, de episódio prévio semelhante ou de história de abstinência alcoólica. Familiares relataram que, há algumas semanas, o paciente foi submetido a uma cirurgia com otorrinolaringologista, após a visualização de uma anormalidade na TC de face. A equipe da emergência iniciou medidas para a estabilização do quadro, com aplicação de antibiótico empírico e a solicitação de hemoculturas. Após a estabilização do paciente apresentado nesse caso clínico, assinale a opção que apresenta o exame prioritário para a continuidade do manejo do paciente.

Alternativas

  1. A) Metanefrinas séricas e urinárias.
  2. B) Dosagem de 5-HT sérico.
  3. C) Ressonância magnética de abdome.
  4. D) Ecocardiograma transesofágico.
  5. E) Avaliação de função tireoidiana.

Pérola Clínica

Febre + Taquicardia + Agitação + Disfunção Orgânica → Pensar em Crise Tireotóxica (Tempestade).

Resumo-Chave

A crise tireotóxica é um estado hipermetabólico extremo desencadeado por fatores estressores (como cirurgia ou iodo) em pacientes com hipertireoidismo não diagnosticado ou mal controlado.

Contexto Educacional

A tempestade tireoidiana representa o espectro mais grave do hipertireoidismo, com taxas de mortalidade que podem chegar a 30% se não tratada. O caso clínico apresenta um gatilho clássico: manipulação cirúrgica ou exposição a iodo (via TC ou procedimentos ORL) em um paciente com bócio ou doença de Graves oculta. A fibrilação atrial de alta resposta é uma complicação cardiovascular comum e perigosa. O diagnóstico é eminentemente clínico, mas a confirmação laboratorial através da função tireoidiana (TSH suprimido e T4 livre elevado) é essencial para a continuidade do manejo e ajuste terapêutico a longo prazo.

Perguntas Frequentes

O que caracteriza clinicamente uma crise tireotóxica?

A crise tireotóxica é um diagnóstico clínico baseado na exacerbação dos sintomas de tireotoxicose. Caracteriza-se por febre alta (frequentemente > 39°C), taquicardia desproporcional à febre, arritmias (especialmente fibrilação atrial), alterações do sistema nervoso central (agitação, confusão, coma) e sintomas gastrointestinais (vômitos, diarreia, dor abdominal). O escore de Burch-Wartofsky é a ferramenta diagnóstica mais utilizada, onde uma pontuação ≥ 45 é altamente sugestiva de tempestade tireoidiana, exigindo tratamento imediato mesmo antes dos resultados laboratoriais.

Por que a cirurgia ou exames de imagem podem desencadear a crise?

O estresse cirúrgico aumenta a liberação de catecolaminas e a sensibilidade dos receptores adrenérgicos aos hormônios tireoidianos. Além disso, o uso de contrastes iodados em TCs ou procedimentos otorrinolaringológicos pode fornecer uma carga excessiva de iodo (fenômeno de Jod-Basedow), que em glândulas hiperfuncunantes ou autônomas, acelera a síntese e liberação de T3 e T4, precipitando a descompensação metabólica aguda em indivíduos suscetíveis.

Qual o manejo inicial da tempestade tireoidiana?

O tratamento deve ser agressivo e multifatorial: 1) Bloqueio da síntese hormonal com tionamidas (Propiltiouracil é preferido pois também inibe a conversão periférica de T4 em T3); 2) Bloqueio da liberação hormonal com iodo (administrado 1h após a tionamida); 3) Bloqueio dos efeitos periféricos com beta-bloqueadores (Propranolol); 4) Inibição da conversão periférica e suporte adrenal com corticosteroides (Hidrocortisona); e 5) Tratamento do fator precipitante e medidas de suporte (resfriamento, hidratação).

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