UNICAMP/HC - Hospital de Clínicas da Unicamp - Campinas (SP) — Prova 2025
Mulher, 40a, procura Unidade de Emergência Referenciada por febre não medida e tosse seca, em salvas e seguida por vômitos, há 16 dias. Trabalha como professora de ensino fundamental e refere que dois alunos de 9 anos de idade apresentam quadro semelhante. Exame físico: PA = 100/60 mmHg, FC = 108 bpm, FR = 24 irpm, T = 37,9ºC, oximetria de pulso = 95%. Ausculta cardíaca e pulmonar sem alterações. Sem edema de membros inferiores. Exames laboratoriais: hemoglobina = 13 g/dL, leucócitos = 20.000/mm³, linfócitos = 10.000/mm³, plaquetas = 200.000/mm³, sódio = 135 mEq/L, potássio = 4,5 mEq/L, creatinina = 0,9 mg/dL. A conduta é:
Tosse em salvas + Vômitos pós-tosse + Linfocitose → Suspeitar de Coqueluche (Bordetella pertussis).
A coqueluche no adulto cursa com tosse prolongada e linfocitose absoluta. O diagnóstico é confirmado por cultura ou PCR de secreção de nasofaringe, e o tratamento precoce reduz a transmissibilidade.
A coqueluche é uma doença infectocontagiosa aguda causada pela bactéria Bordetella pertussis. Apesar da vacinação na infância, a imunidade (tanto vacinal quanto natural) decai com o tempo, tornando adolescentes e adultos reservatórios importantes da doença. Nestes, o quadro clínico pode ser atípico, manifestando-se apenas como tosse seca prolongada (mais de 14 dias). O diagnóstico diferencial inclui asma, refluxo gastroesofágico e outras infecções virais. A linfocitose é um marcador importante, causada pela toxina pertussis que impede a migração dos linfócitos para os tecidos linfoides. A vigilância epidemiológica é fundamental, com notificação compulsória de casos suspeitos para controle de surtos, especialmente em ambientes escolares.
A coqueluche divide-se em três fases: 1) Fase Catarral (1-2 semanas), com sintomas inespecíficos de resfriado, sendo o período de maior transmissibilidade; 2) Fase Paroxística (2-6 semanas), caracterizada por acessos de tosse súbitos e incontroláveis (salvas), seguidos por um guincho inspiratório e, frequentemente, vômitos pós-tosse (vômitos pós-tussígenos); 3) Fase de Convalescença (semanas a meses), onde a tosse diminui gradualmente em frequência e intensidade. Em adultos e adolescentes, o guincho pode estar ausente, manifestando-se apenas como tosse persistente e extenuante.
O padrão-ouro para o diagnóstico é a cultura de secreção de nasofaringe, coletada preferencialmente com swab de dacron ou alginato de cálcio. No entanto, a cultura é lenta e sensível ao uso prévio de antibióticos. A Reação em Cadeia da Polimerase (PCR) é o método mais sensível e rápido, sendo preferida na prática clínica atual. A coleta deve ser realizada até a terceira semana do início da tosse ou até 48-72 horas após o início do tratamento com macrolídeos. A presença de linfocitose absoluta no hemograma é um achado clássico que reforça a suspeita clínica.
O tratamento de escolha é feito com macrolídeos, sendo a Azitromicina a droga preferencial (5 dias). Alternativas incluem Claritromicina ou Eritromicina. O tratamento iniciado na fase catarral pode atenuar a doença, mas na fase paroxística serve principalmente para interromper a cadeia de transmissão (o paciente deixa de ser infectante após 5 dias de antibiótico). Comunicantes próximos, independentemente do estado vacinal, devem receber quimioprofilaxia com macrolídeos se houver risco de transmissão para pessoas vulneráveis (como lactentes) ou se forem profissionais de saúde/educação.
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