SES-DF - Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal — Prova 2022
Uma paciente de 65 anos de idade compareceu à consulta com queixa de polidipsia, polifagia, poliúria e perda ponderai de 5 kg nos últimos três meses. Queixa-se também de humor deprimido, anedonia e avolia. Tabagista, possui diagnósticos de hipertensão arterial sistêmica (HAS), doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e depressão. Faz uso de amitriptilina 25 mg à noite, enalapril 10 mg, 2 vezes ao dia, hidroclorotiazida 25 mg, 1 vez ao dia e salbutamol inalatório sob demanda. Ao exame físico apresenta mancha hiperpigmentada em região de dobra cervical, aveludada à palpação. Observou-se PA =160 mmHg x 110 mmHg em ambos os membros superiores. Foi realizada medida de HGT, com resultado de 320 mg/dL. Com base nesse caso clínico e nos conhecimentos médicos correlatos, julgue o item a seguir.Pode-se associar um betabloqueador, como o propranolol, ao tratamento anti-hipertensivo.
DPOC + Diabetes → Evitar betabloqueadores não seletivos (Propranolol) pelo risco de broncoespasmo e mascaramento de hipoglicemia.
O uso de betabloqueadores não seletivos como o propranolol é contraindicado em pacientes com DPOC devido ao risco de broncoespasmo e deve ser evitado em diabéticos por mascarar sintomas adrenérgicos de hipoglicemia.
O manejo de pacientes multicomorbidos exige atenção às interações fisiopatológicas. No caso apresentado, a paciente exibe sinais claros de resistência insulínica (acantose nigricans) e descompensação glicêmica (HGT 320 mg/dL), além de patologia obstrutiva pulmonar. O uso de propranolol, um betabloqueador de primeira geração, é formalmente contraindicado devido ao risco iminente de broncoespasmo pela ocupação de receptores beta-2. Além disso, o perfil metabólico da paciente sugere Diabetes Mellitus tipo 2, onde o bloqueio adrenérgico não seletivo impede a percepção de hipoglicemias, um risco de segurança crítico. A hipertensão estágio 2 deve ser tratada com fármacos que não agravem as condições de base, priorizando-se a segurança cardiovascular e respiratória.
O propranolol é um betabloqueador não seletivo que antagoniza tanto os receptores beta-1 (cardíacos) quanto os beta-2 (bronquiais). Em pacientes com DPOC ou asma, o bloqueio dos receptores beta-2 pode desencadear broncoespasmo grave, reduzindo a eficácia de broncodilatadores como o salbutamol e agravando a obstrução ao fluxo aéreo. Portanto, se um betabloqueador for estritamente necessário, deve-se optar por agentes cardiosseletivos (beta-1 seletivos) em doses baixas, embora a cautela permaneça em casos de doença pulmonar grave.
Betabloqueadores, especialmente os não seletivos, podem mascarar os sinais de alerta autonômicos da hipoglicemia, como taquicardia e tremores, dificultando o reconhecimento da crise pelo paciente. Além disso, podem interferir na glicogenólise e na liberação de insulina, potencialmente piorando o controle glicêmico e prolongando episódios de hipoglicemia. Em pacientes com resistência insulínica manifesta (como a acantose nigricans descrita), o uso deve ser criteriosamente avaliado para não exacerbar o quadro metabólico.
Considerando que a paciente já utiliza Enalapril (IECA) e HCTZ (Tiazídico) e mantém níveis pressóricos elevados (160/110 mmHg), a otimização das doses atuais ou a adição de um bloqueador dos canais de cálcio (BCC) seria mais adequada. Os BCCs não interferem na dinâmica pulmonar da DPOC nem no metabolismo da glicose, sendo opções seguras e eficazes para o controle da hipertensão em pacientes com múltiplas comorbidades metabólicas e respiratórias, evitando os riscos associados aos betabloqueadores.
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