SMS Florianópolis - Secretaria Municipal de Saúde de Florianópolis (SC) — Prova 2022
Elson, 21 anos, chega à unidade acompanhado de sua mãe Tereza. Fala pouco, quando questionado sobre o motivo da consulta refere que só veio por insistência de sua mãe, mas como já está no posto deseja uma medicação para sua dor em queimação em região epigástrica. Tereza conta que, no último ano, o filho tem mudado de comportamento e ela está muito preocupada. Ele estava trabalhando como auxiliar de pedreiro com um amigo da igreja e ele relatou a ela, que o filho tem chegado atrasado na obra e seu rendimento no trabalho tem diminuído. Além disso, tem ficado mais impaciente com seus irmãos mais novos e isso tem gerado conflitos com seu padrasto. Reside com sua mãe, padrasto e três irmãos mais novos de 10, 12 e 15 anos. O pai saiu de casa quando tinha 5 anos e nunca mais retornou e perderam contato desde então. Tereza fala que "foi melhor assim, pois o pai de Elson bebia demais e quando estava alcoolizado tornava-se muito agressivo com eles". Tereza teme que o filho tenha o mesmo problema que o pai e por isso o trouxe à consulta. Elson refere que faz uso de álcool diariamente e cocaína inalada aos finais de semana, quando ingere maior quantidade de álcool. Durante a semana, ingere cerca de 2-4 latas de cerveja no final do dia para relaxar após o trabalho e aos finais de semana ingere destilados e cerca de uma caixa de cerveja ao dia até domingo. Ao exame físico: apresenta apenas a pressão arterial alterada (150 x 80 mmHg). Abdome sem alterações. Sobre o caso acima, podemos dizer que:
Uso de substâncias: um continuum, não um ponto fixo; a intervenção deve reconhecer essa fluidez.
O uso de substâncias psicoativas, como álcool e cocaína, não é um fenômeno dicotômico, mas sim um continuum que vai do uso experimental à dependência. Pacientes podem transitar entre esses padrões, o que exige uma abordagem flexível e individualizada, que pode incluir a redução de danos, visando melhorar a qualidade de vida e diminuir os riscos associados ao uso, sem necessariamente buscar a abstinência total como único objetivo inicial.
O transtorno por uso de substâncias (TUS) é uma condição complexa e multifatorial que afeta milhões de pessoas globalmente. A compreensão de que o uso de substâncias não é um evento isolado, mas sim um processo que se desenvolve em um continuum, é crucial para a abordagem clínica. Esse continuum abrange desde o uso experimental e recreacional até o abuso e a dependência, com a possibilidade de transição entre esses estágios em ambas as direções. A fisiopatologia do TUS envolve alterações neurobiológicas no sistema de recompensa cerebral, fatores genéticos, psicossociais e ambientais. O diagnóstico é baseado em critérios clínicos estabelecidos, como os do DSM-5, que avaliam a presença de prejuízos significativos. É fundamental que o profissional de saúde esteja atento aos sinais de uso problemático, como mudanças de comportamento, diminuição do rendimento e conflitos interpessoais, além de sintomas físicos como a hipertensão arterial, que podem estar associados ao uso crônico. O tratamento do TUS deve ser individualizado e pode incluir diversas abordagens, como a intervenção breve, terapia cognitivo-comportamental, grupos de apoio e, em alguns casos, farmacoterapia. A abordagem de redução de danos é uma estratégia válida e eficaz, especialmente para pacientes que não estão prontos ou não desejam a abstinência total, pois visa minimizar os riscos e danos associados ao uso, facilitando o engajamento no tratamento e a construção de um vínculo terapêutico. A internação para desintoxicação é reservada para casos com risco de abstinência grave ou complicações clínicas.
O continuum do uso de substâncias inclui padrões como uso experimental (curiosidade), uso recreacional (ocasional, sem problemas), uso abusivo (uso prejudicial, mas sem dependência) e dependência (perda de controle, tolerância, abstinência). Os indivíduos podem transitar entre esses padrões ao longo do tempo.
A redução de danos é uma estratégia que visa diminuir as consequências negativas do uso de substâncias para o indivíduo e a sociedade, sem necessariamente exigir a abstinência total. Ela busca engajar o paciente, oferecer informações e ferramentas para um uso mais seguro ou para a diminuição do consumo, construindo um vínculo terapêutico.
O histórico familiar de uso de álcool é um fator de risco genético e ambiental significativo para o desenvolvimento de transtornos por uso de álcool. Ele não caracteriza automaticamente a dependência, mas aumenta a vulnerabilidade do indivíduo e deve ser considerado na avaliação e no plano terapêutico, reforçando a necessidade de intervenção precoce.
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