HOS/BOS - Hospital Oftalmológico de Sorocaba - Banco de Olhos (SP) — Prova 2026
Escolar, sexo feminino, com 7 anos é trazida ao ambulatório pelos pais com queixa de “diarreia constante” há cerca de 6 meses. Os responsáveis relatam que a criança frequentemente evacua pequenas quantidades de fezes pastosas, com odor muito forte, aproximadamente 3 a 4 vezes ao dia, sendo a maioria dos episódios observada nas roupas íntimas. Relatam que antes do início dessa “diarreia”, a paciente frequentemente se queixava de dor abdominal esporádica e dificuldade para evacuar. Negam febre, emagrecimento ou mudança na dieta. No histórico alimentar, a família menciona baixa ingestão de fibras e de líquidos. Ao exame físico, a paciente apresenta bom estado geral, está corada e hidratada. Peso e estatura adequados para a idade. Abdome levemente distendido, com massa palpável em fossa ilíaca esquerda, móvel e indolor. Ausculta abdominal revela peristalse normal. Exame retal demonstra fezes ressecadas no canal anal. Com base no quadro apresentado e no diagnóstico mais provável, qual a conduta inicial mais apropriada?
Encoprese + massa em FIE + fezes no reto = Constipação funcional (pseudodiarreia).
A 'diarreia' relatada é, na verdade, o transbordamento de fezes pastosas por uma massa fecal impactada no reto, exigindo desimpactação e manutenção com laxantes.
A constipação funcional é uma das queixas gastrointestinais mais comuns na pediatria, frequentemente subdiagnosticada quando se manifesta como encoprese. A fisiopatologia envolve o comportamento de retenção (medo de evacuar devido à dor), levando ao acúmulo de fezes, distensão retal e perda da sensibilidade de evacuação. O manejo exige paciência, pois o tratamento de manutenção deve durar meses para permitir que o reto recupere seu tônus normal. O uso de exames de imagem, como o raio-X de abdome, deve ser reservado para casos de dúvida diagnóstica ou quando o exame físico é inconclusivo, priorizando-se sempre a anamnese e o exame clínico detalhado.
A pseudodiarreia, ou encoprese por transbordamento, ocorre quando fezes amolecidas ou líquidas contornam um fecaloma impactado no reto e escapam involuntariamente. Clinicamente, os pais relatam evacuações frequentes de pequena quantidade e odor fétido, muitas vezes sujando a roupa íntima (soiling). O diagnóstico é confirmado pela história de dificuldade evacuatória prévia e achado de massa fecal palpável no abdome ou toque retal, diferenciando-se de quadros infecciosos ou inflamatórios primários.
O tratamento baseia-se em três pilares: desimpactação fecal (se necessária), manutenção com laxantes osmóticos e intervenção comportamental/dietética. O Polietilenoglicol (PEG) 3350 ou 4000 é o padrão-ouro devido à sua eficácia e segurança a longo prazo. Além disso, é fundamental orientar o treinamento de hábito intestinal (sentar no vaso após as refeições) e o aumento da ingestão de fibras e líquidos, embora a dieta isolada raramente resolva quadros graves estabelecidos.
Sinais de alerta (red flags) incluem: início no primeiro mês de vida, atraso na eliminação de mecônio (>48h), fezes em fita, sangue nas fezes (sem fissura), falha no crescimento pondero-estatural, distensão abdominal grave com vômitos e anomalias na região sacral ou perianal. Na ausência desses sinais e preenchendo os critérios de Roma IV (como <2 evacuações/semana, história de retenção excessiva e dor), o diagnóstico de constipação funcional é soberano.
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