TECM Teórica - Prova Teórica de Clínica Médica — Prova 2021
Considere que uma mulher de 65 anos de idade apresenta-se ao serviço de urgência com os seguintes achados ao exame do estado mental: rebaixamento do nível consciência, desorientação temporoespacial, hipotenacidade, afeto ansioso, agitação psicomotora e prejuízos no juízo de realidade. A paciente não apresenta comorbidades e não faz uso de medicamentos. Nesse caso, qual é a hipótese diagnóstica e a conduta a ser adotada?
Início agudo + flutuação + déficit de atenção = Delirium (investigar causa orgânica).
O delirium é uma emergência médica caracterizada por disfunção cerebral aguda. No idoso, deve-se sempre priorizar a busca por causas infecciosas, metabólicas ou farmacológicas antes de considerar transtornos psiquiátricos primários.
O delirium, ou síndrome confusional aguda, representa uma falência cerebral transitória decorrente de insultos sistêmicos. Em idosos, a reserva cognitiva reduzida torna o cérebro mais vulnerável a gatilhos como infecções urinárias, desidratação ou novos medicamentos. A fisiopatologia envolve desequilíbrios neurotransmissores, notadamente a deficiência colinérgica e o excesso dopaminérgico. O reconhecimento precoce é vital, pois o delirium está associado a maior mortalidade, tempo de internação prolongado e declínio funcional permanente. A abordagem deve ser sempre multifatorial, focando na correção dos fatores precipitantes e na otimização do ambiente hospitalar para reduzir a desorientação.
O diagnóstico de delirium é clínico, frequentemente baseado no Confusion Assessment Method (CAM). Os critérios fundamentais incluem: 1) Início agudo e curso flutuante; 2) Déficit de atenção (dificuldade de focar ou manter a conversa); 3) Pensamento desorganizado; e 4) Alteração do nível de consciência (hiperalerta ou letárgico). Para o diagnóstico, os itens 1 e 2 são obrigatórios, somados ao 3 ou ao 4. É essencial diferenciar do quadro de demência, que possui instalação insidiosa e progressiva.
A principal distinção reside na alteração do nível de consciência e na atenção, que estão preservadas em transtornos psicóticos primários (como esquizofrenia), mas comprometidas no delirium. Além disso, o delirium tem início súbito (horas a dias) e geralmente apresenta uma causa médica subjacente identificável (infecções, distúrbios hidroeletrolíticos, polifarmácia). Alucinações visuais são mais comuns no delirium, enquanto as auditivas predominam na esquizofrenia.
A conduta imediata envolve a estabilização clínica e a busca ativa pela causa base. Deve-se realizar anamnese detalhada, exame físico minucioso e exames complementares (hemograma, eletrólitos, função renal, glicemia, urina I e, se necessário, neuroimagem). O manejo ambiental é crucial (reorientação, ciclo sono-vigília). O uso de antipsicóticos em baixas doses (como haloperidol) reserva-se apenas para casos de agitação grave que coloque em risco o paciente ou a equipe, priorizando sempre o tratamento da etiologia.
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