UFRJ/HUCFF - Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (RJ) — Prova 2024
Pode-se afirmar a respeito da doença litiásica da via biliar, que:
Obstrução biliar aguda por cálculo → ↑↑ Transaminases (mimetiza hepatite) antes do pico de Bilirrubinas.
Na fase aguda da migração de um cálculo biliar, a elevação súbita da pressão intraductal causa lesão hepatocelular transitória, podendo elevar transaminases acima de 10x o limite superior, simulando hepatite viral.
A doença litiásica biliar é uma das patologias cirúrgicas mais comuns. A compreensão da dinâmica laboratorial é crucial para evitar diagnósticos errôneos. Na coledocolitíase aguda, o padrão laboratorial pode ser confuso nas primeiras horas, mimetizando uma agressão hepatocelular primária. No entanto, a rápida queda das transaminases e a elevação concomitante de bilirrubina direta e enzimas canaliculares (FA e GGT) clarificam o quadro obstrutivo. Em relação aos níveis de bilirrubina, na obstrução benigna por cálculos, a bilirrubina total raramente ultrapassa 15-20 mg/dL. Níveis persistentemente acima de 20 mg/dL devem levantar a suspeita de obstrução maligna ou doença hepática parenquimatosa associada. O tratamento da coledocolitíase envolve a desobstrução da via biliar, preferencialmente por CPRE (Colangiopancreatografia Retrógrada Endoscópica) ou exploração cirúrgica, seguida de colecistectomia para prevenir novos episódios de migração calculosa.
Embora as transaminases (TGO/AST e TGP/ALT) sejam marcadores de lesão hepatocelular, elas podem sofrer elevações dramáticas (frequentemente > 1000 U/L) nas primeiras 24 a 48 horas de uma obstrução biliar aguda, como na passagem de um cálculo pelo colédoco. Isso ocorre devido ao aumento súbito da pressão hidrostática nos ductos biliares, que é transmitida aos hepatócitos, causando uma 'hepatite obstrutiva' transitória. Após esse pico inicial, os níveis de transaminases tendem a cair rapidamente (em 24-72 horas), enquanto os marcadores de colestase, como a bilirrubina direta, a fosfatase alcalina e a gama-GT, começam a subir de forma mais sustentada, estabelecendo o padrão colestático clássico.
O sinal de Courvoisier-Terrier refere-se à palpação de uma vesícula biliar distendida e indolor em um paciente ictérico. Esse achado sugere fortemente que a obstrução da via biliar é de natureza neoplásica (como câncer de cabeça de pâncreas ou colangiocarcinoma distal) e não calculosa. Na doença litiásica crônica, a vesícula biliar costuma estar fibrótica e murcha devido a episódios repetidos de inflamação (colecistite crônica), o que a impede de se dilatar mesmo diante de uma obstrução distal. Portanto, a presença de vesícula palpável em contexto de icterícia obstrutiva geralmente afasta a hipótese de cálculo como causa primária da obstrução.
Os cálculos biliares são classificados em cálculos de colesterol (os mais comuns no Ocidente, formados na vesícula biliar) e cálculos pigmentados. Os cálculos pigmentados dividem-se em pretos e castanhos. Os cálculos pretos são compostos por bilirrubinato de cálcio e formam-se na vesícula biliar em condições de hemólise crônica ou cirrose. Já os cálculos castanhos (ou marrons) são formados primariamente nos ductos biliares, geralmente associados à estase biliar e infecção bacteriana crônica, sendo ricos em palmitato de cálcio e bilirrubinato. A maioria dos cálculos encontrados no colédoco são, na verdade, cálculos de colesterol que migraram da vesícula (coledocolitíase secundária).
Responda esta e mais de 150 mil questões comentadas no MedEvo — a plataforma de residência médica com IA.
Responder questão no MedEvo