Santa Casa de Belo Horizonte (MG) — Prova 2026
Criança de 3 meses de vida, sexo feminino, comparece pela terceira vez a um pronto atendimento, por apresentar cansaço e sudorese após as mamadas. A acompanhante relata que não tem notado ganho de peso satisfatório, apesar de observar que o lactente, que está em aleitamento materno exclusivo, suga bem o seio materno. No exame físico, lactente com regular estado geral, pulsos periféricos debilmente palpáveis, acianótico, hidratado, com esforço respiratório leve, frequência cardíaca de 170 bpm, Pressão arterial 120x80 mmhg em membro superior direito, fígado a 4 cm reborda costal direita, frequência respiratória de 70 irpm, murmúrio vesicular fisiológico. Diante do caso clínico, qual a PRINCIPAL hipótese diagnóstica?
Sudorese às mamadas + Pulsos débeis + HAS em MMSS = Coarctação da Aorta.
A coarctação da aorta em lactentes manifesta-se como insuficiência cardíaca esquerda devido ao aumento da pós-carga, apresentando classicamente gradiente pressórico entre membros.
A coarctação da aorta é uma cardiopatia congênita caracterizada pelo estreitamento da luz aórtica, geralmente na região do istmo, próximo à inserção do ducto arterioso. Em lactentes, a apresentação clínica pode ser dramática, evoluindo com sinais de baixo débito cardíaco e insuficiência cardíaca congestiva à medida que o canal arterial se fecha. Os sintomas clássicos incluem dificuldade de alimentação, sudorese profusa durante o esforço (mamadas) e baixo ganho ponderal. O exame físico é a chave diagnóstica: a presença de hipertensão arterial em membros superiores associada a pulsos femorais débeis ou retardados em relação ao pulso braquial (atraso rádio-femoral) é patognomônica. O ecocardiograma com Doppler é o padrão-ouro inicial para confirmar a localização e a gravidade da obstrução, além de avaliar anomalias associadas, como a valva aórtica bicúspide, presente em até 50-85% dos casos.
A principal característica clínica da Coarctação da Aorta (CoA) é a disparidade entre os pulsos e a pressão arterial dos membros superiores e inferiores. Enquanto os pulsos em membros superiores (radial/braquial) podem estar normais ou amplos, os pulsos femorais, poplíteos e pediosos estão diminuídos ou ausentes. Além disso, há um gradiente de pressão arterial sistólica (geralmente > 20 mmHg) favorável aos membros superiores. Diferente das cardiopatias cianogênicas, a CoA é tipicamente acianogênica, a menos que haja outras malformações associadas ou choque cardiogênico grave com má perfusão periférica.
A hepatomegalia em lactentes com Coarctação da Aorta é um sinal de insuficiência cardíaca congestiva (ICC). A obstrução ao fluxo na aorta descendente aumenta a pós-carga do ventrículo esquerdo, levando à disfunção ventricular e aumento das pressões de enchimento retrógradas. Isso resulta em congestão venosa sistêmica, manifestada pelo ingurgitamento do fígado. Em pediatria, a borda hepática palpável a mais de 2 cm do rebordo costal direito, associada a taquipneia e taquicardia, é um marcador fidedigno de congestão sistêmica por falência cardíaca.
No período neonatal imediato, se a coarctação for dependente do canal arterial (forma crítica), o manejo inicial envolve a infusão de Prostaglandina E1 (Alprostadil) para manter a patência do ducto arterioso, garantindo o fluxo sanguíneo para a aorta descendente e órgãos abdominais. Além disso, deve-se tratar a insuficiência cardíaca com diuréticos (furosemida) e, se necessário, suporte inotrópico. O tratamento definitivo é cirúrgico (anastomose término-terminal, técnica de Waldhausen) ou, em casos selecionados e recidivas, angioplastia por balão ou colocação de stent.
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