USP/HCFMUSP - Hospital das Clínicas da FMUSP (SP) — Prova 2024
Paciente realizou tratamento cirúrgico definitivo das lesões abdominais, pélvicas e de extremidades. Foi encaminhado para UTI, porém evolui com sangramentos em óstios dos cateteres, em curativos, tanto em abdome, quanto de extremidades e de ferimento corto-contuso em dorso. Em curso infusão, de ácido tranexâmico de manutenção. Assinale a alternativa que contém o plano com a ordem recomendada de prioridades para a terapêutica da correção da coagulopatia do paciente, considerando-se que a contenção mecânica foi efetiva:
Tríade letal (pH/T/Ca) + Reversão → Fibrinogênio → Plasma → Plaquetas → Fator VIIa.
A correção da coagulopatia no trauma exige estabilização do meio interno (cálcio, pH e temperatura) antes da reposição de fatores específicos, priorizando o fibrinogênio sobre o plasma.
A coagulopatia induzida pelo trauma (CIT) é um processo multifatorial que envolve consumo de fatores, hiperfibrinólise e disfunção plaquetária, agravado pela tríade letal (acidose, hipotermia e hipocalcemia). O manejo moderno foca no 'Controle de Danos Hemostático', onde a estabilização fisiológica precede ou acompanha a reposição de componentes sanguíneos. Esta questão aborda a hierarquia terapêutica recomendada por protocolos internacionais (como o European Guideline on Management of Major Bleeding). A sequência lógica inicia-se pela correção dos cofatores e ambiente (Cálcio, pH, Temperatura), seguida pela neutralização de agentes interferentes (anticoagulantes), reposição do substrato limitante (fibrinogênio), aporte de fatores plasmáticos e plaquetas, reservando agentes farmacológicos potentes como o Fator VIIa para o final do algoritmo.
O cálcio iônico é o fator IV da cascata de coagulação e é essencial para a formação do complexo protrombinase e a ativação de diversos fatores. No trauma, a hipocalcemia é comum devido à perda sanguínea e ao citrato presente nos hemoderivados, que quela o cálcio. Sem níveis adequados de cálcio, as etapas subsequentes de reposição de fatores e plaquetas são significativamente menos eficazes, pois a maquinaria enzimática da coagulação não consegue operar em sua capacidade máxima.
O fibrinogênio é o primeiro fator de coagulação a atingir níveis criticamente baixos durante uma hemorragia grave e hemodiluição. Ele é o substrato final para a formação do coágulo de fibrina. As diretrizes modernas de trauma recomendam a reposição precoce de fibrinogênio (via crioprecipitado ou concentrado de fibrinogênio) assim que os níveis caem abaixo de 1,5-2,0 g/L, frequentemente antes mesmo da transfusão maciça de plasma, para garantir a estabilidade do coágulo formado.
O Fator VII recombinante ativado (rFVIIa) é considerado uma terapia de 'último recurso' ou adjuvante no sangramento incontrolável. Ele só deve ser administrado após a contenção mecânica do sangramento (cirurgia/angioembolização) e após a otimização do meio interno: temperatura > 35°C, pH > 7.2, plaquetas > 50.000 e fibrinogênio > 100 mg/dL. Se o ambiente bioquímico estiver ácido ou hipotérmico, o rFVIIa terá atividade enzimática mínima, resultando em desperdício de recurso e falha terapêutica.
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