SUS-RR - Sistema Único de Saúde de Roraima — Prova 2017
V.S, 59 anos, branca, casada, natural do interior do Estado, do lar, mãe de 5 filhos homens, sendo que o mais velho tem 34 anos e o mais novo tem 23 anos. Moram com a mãe apenas os 3 filhos mais jovens, que estão desempregados e sem estudar e têm idades de 27, 25 e 23 anos. O filho mais velho é pedreiro, é casado e tem 3 filhos, sendo 2 meninas e 1 menino (caçula) e mora próximo a casa da mãe. O Segundo filho mora na capital onde trabalha como marceneiro e é solteiro. É a segunda filha de uma prole de 6 filhas, o irmão mais jovem é um homem de19 anos. Seu marido é filho único do terceiro casamento de seu pai, não sabe se tem outros irmãos. Não convive com a família de origem há 20 anos. V.S convive pouco com os irmãos e seus pais já faleceram, a mãe há 5 anos, e o pai há 3 anos, ambos por câncer. A paciente vem a UBS com muita frequência, com queixas múltiplas e com diferentes repercussões. No último ano realizou 43 consultas ambulatoriais, 5 internações hospitalares e um número incontável de consultas na emergência. A paciente possui diagnóstico de asma brônquica moderada. Diante do expressivo número de consultas realizadas em um ano, sua história clínica foi revisada, e os exames e as condutas se mostraram adequadas e irretocáveis do ponto de vista clínico. Foi também observado que a paciente sempre comparecia sozinha às consultas, independente da gravidade das situações e das circunstâncias que as envolviam. A família vive de pensão que a paciente recebe do pai e de ”bicos” que o marido faz em serralheria. De acordo com o caso clínico acima responda: Qual o ciclo de vida que esta família se encontra?
Filhos adultos saindo de casa + redefinição do casal = Estágio de Lançamento dos Filhos.
O estágio de 'Lançamento dos Filhos' foca na saída dos jovens adultos do lar e na renegociação do sistema marital, frequentemente associado a somatizações se houver resistência à mudança.
O ciclo de vida familiar, conforme proposto por McGoldrick e Carter, é um modelo dinâmico que descreve as fases previsíveis pelas quais as famílias passam. O estágio de 'Lançando os filhos e seguindo em frente' inicia-se quando o primeiro filho sai de casa e termina quando o último sai (ninho vazio). No caso clínico, a presença de filhos adultos (23 a 27 anos) ainda no lar, mas em processo de transição, e o filho mais velho já estabelecido, caracteriza esse período de dispersão. A alta frequência de consultas da paciente (43 no ano) sem causa orgânica aparente sugere uma dificuldade de adaptação a essa fase, onde o papel materno centralizador é desafiado pela necessidade de autonomia dos filhos e pelo reajuste da relação com o cônjuge. Na APS, reconhecer o estágio do ciclo de vida é fundamental para evitar a iatrogenia por excesso de exames e focar na abordagem familiar e psicossocial.
As principais tarefas incluem a renegociação do sistema marital como uma díade (sem a mediação constante dos filhos), o desenvolvimento de relacionamentos de adulto para adulto entre pais e filhos crescidos, e a inclusão de novos membros por meio de casamentos ou uniões dos filhos. É um período de transição crítica onde o sistema familiar deve se flexibilizar para permitir a independência da prole enquanto mantém o suporte emocional necessário para os membros que permanecem e os que saem.
Frequentemente, pacientes em fases de transição do ciclo de vida (como o ninho vazio ou lançamento de filhos) apresentam queixas físicas inespecíficas e alta utilização de serviços de saúde. Isso ocorre quando o sistema familiar está 'travado' em uma fase anterior, e o sintoma físico de um membro (muitas vezes a mãe) serve para manter a coesão familiar ou evitar o enfrentamento de conflitos conjugais que ressurgem com a saída dos filhos, funcionando como um mecanismo de defesa sistêmico.
O genograma é uma ferramenta essencial na Medicina de Família e Comunidade para visualizar a estrutura familiar, os padrões de relacionamento e as transições de vida. Ele permite identificar em qual estágio do ciclo de vida a família se encontra, detectar crises previsíveis (normativas) e planejar intervenções que auxiliem a família a superar bloqueios no desenvolvimento de seus membros, facilitando a compreensão de queixas psicossomáticas no contexto das relações.
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