Choque Misto no Trauma: Obstrutivo e Hipovolêmico

CERMAM - Comissão Estadual de Residência Médica do Amazonas — Prova 2025

Enunciado

Paciente, sexo masculino, 35 anos de idade, vítima de acidente motociclístico (queda da moto após colisão contra um poste), cursou com traumatismo cranioencefálico e torácico. Adentra na Emergência pronunciando sons incompreensíveis, localizando dor aos estímulos dolorosos, porém sem abertura ocular. Taquidispnéico, diaforético, apresentava estase de jugulares a 45º, murmúrio vesicular abolido à esquerda, com hipertimpanismo à percussão ipsilateral. À rápida inspeção, observava-se lesão contusa em couro cabeludo, com sangramento ativo e queda da língua, com grande esforço respiratório. Mucosas descoradas 3+/4+. Dados vitais à admissão, PA=70X40mmHg, pulso=140bpm, FR=40irpm. Em relação ao estado de choque desse paciente, pode-se afirmar que mais provavelmente se trata de choque:

Alternativas

  1. A) misto: cardiogênico e hipovolêmico
  2. B) misto: obstrutivo e hipovolêmico
  3. C) hipovolêmico apenas
  4. D) neurogênico apenas

Pérola Clínica

Trauma + hipotensão + estase jugular + murmúrio abolido/hipertimpanismo → Choque obstrutivo (pneumotórax) + Choque hipovolêmico (hemorragia).

Resumo-Chave

A coexistência de sinais de choque hipovolêmico (palidez, taquicardia, hipotensão) com sinais de aumento da pressão intratorácica (estase jugular, hipertimpanismo) é a marca registrada do choque misto no trauma. A estase jugular em um paciente hipotenso é um sinal de alarme para choque obstrutivo.

Contexto Educacional

O manejo do paciente politraumatizado exige uma avaliação rápida e sistemática, seguindo os preceitos do ATLS (Advanced Trauma Life Support). A identificação e o tratamento das causas de choque são prioritários na avaliação primária (o 'C' de circulação). Embora o choque hipovolêmico hemorrágico seja o mais comum no trauma, outras etiologias, como o choque obstrutivo, devem ser prontamente reconhecidas. O choque obstrutivo ocorre quando há um bloqueio mecânico ao enchimento ou esvaziamento cardíaco, como no pneumotórax hipertensivo ou no tamponamento cardíaco. O caso descrito ilustra um cenário de choque misto. A história de trauma, palidez e taquicardia extrema apontam para hemorragia (choque hipovolêmico). No entanto, a presença de estase jugular, murmúrio vesicular abolido e hipertimpanismo são sinais patognomônicos de pneumotórax hipertensivo (choque obstrutivo). Nessa situação, o ar aprisionado no espaço pleural comprime o pulmão e desvia o mediastino, colabando a veia cava e impedindo o retorno venoso ao coração, o que causa a estase jugular e a hipotensão. O tratamento deve ser simultâneo: descompressão torácica imediata para aliviar a obstrução e reposição volêmica agressiva para tratar a hipovolemia, seguida do controle da fonte de sangramento.

Perguntas Frequentes

Quais são os sinais clássicos do pneumotórax hipertensivo?

Os sinais incluem insuficiência respiratória grave, desvio de traqueia contralateral (sinal tardio), murmúrio vesicular abolido, hipertimpanismo à percussão no hemitórax afetado, hipotensão e estase jugular.

Qual a conduta imediata diante da suspeita de pneumotórax hipertensivo?

A conduta é a descompressão torácica imediata com agulha, antes mesmo da confirmação radiológica. Realiza-se a punção no 5º espaço intercostal, linha axilar anterior, ou no 2º espaço intercostal, linha hemiclavicular, seguida de drenagem torácica definitiva.

Por que as veias jugulares são um divisor de águas no diagnóstico do choque no trauma?

Porque seu estado reflete a pressão de enchimento do coração direito. No choque hipovolêmico, as jugulares estão colabadas devido à baixa volemia. No choque obstrutivo (pneumotórax hipertensivo, tamponamento cardíaco), elas estão túrgidas (estase) devido ao impedimento do retorno venoso.

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