Choque Hipovolêmico no Trauma: Diagnóstico e Manejo

Santa Casa de Campo Grande (MS) — Prova 2023

Enunciado

Paciente de 87 anos foi vítima de acidente automobilístico em rodovia de alta energia cinética. É transferido ao centro de trauma mais próximo por equipe de resgate avançado. Durante o transporte apresentou sinais clínicos de choque e recebeu 1000ml de ringer lactato aquecido e 1g de ácido tranexâmico. Foi admitido em prancha rígida, com colar cervical, acesso venoso periférico calibroso, sonda vesical de demora e máscara de oxigênio com fluxo de 10l/min. Sinais vitais da admissão: Frequência cardíaca: 60 bpm Pressão arterial: 70 x 30 mmHg Frequência respiratória: 33 ipm Saturação periférica de oxigênio: 98% Temperatura axilar: 35,3°C. Atendimento primário: A – Via aérea pérvia, com colar cervical adequado; B – Expansibilidade torácica simétrica, ausência de hematomas ou crepitações. Som claropulmonar à percussão. Murmúrio presente bilateral sem ruídos adventícios. FR: 33ipm. Saturação de oxigênio: 98% com máscara a 10l/min; C – Hipotenso. Normocardico. Extremidades frias, mal perfundidas, com pulsos filiformes. Descorado. Desidratado. Bulhas arrítmicas, normofonéticas, sem sopros audíveis. Ausência de estase jugular. Diurese de 5ml/h até então; D – Pupilas isocóricas, fotorreagentes, sem déficits focais. Abertura ocular ao chamado, obedece a comandos verbais, ansioso e confuso; E – Hipotérmico, em prancha rígida e com manta térmica. Sem outras lesões ameaçadoras à vida aparente. Sem alergias. Em uso regular de carvedilol, furosemida, espironolactona, ácido 9cetilsalicílico, rosuvastatina e warfarina devido à insuficiência cardíaca e fibrilação atrial. Última refeição há 2 horas. Houve grande deformidade dos veículos envolvidos com óbito no local. Notado na avaliação secundária grande lesão de couro cabeludo sem sangramento ativo. Dor abdominal importante à palpação difusa, sem sinais de irritação peritoneal. Pelve fechada. Sem lesões aparentes de ossos longos. Solicitadas radiografias de tórax e pelve (abaixo): Assinale a correta.

Alternativas

  1. A) Trata-se de um choque neurogênico clássico e a conduta mais adequada de imediato é iniciar corticoterapia endovenosa.
  2. B) Trata-se de um choque neurogênico clássico e a conduta mais adequada de imediato é manter prancha rígida e colar cervical até realização de ressonância magnética de coluna.
  3. C) Trata-se de um choque hipovolêmico grau III e a conduta mais adequada de imediato é transfusão de hemocomponentes e tomografia de corpo inteiro.
  4. D) Trata-se de um choque hipovolêmico grau III e a conduta mais adequada de imediato é transfusão de hemocomponentes e identificação da fonte do sangramento com US FAST ou laparotomia exploradora.

Pérola Clínica

Trauma + Hipotensão + Normocardia (em uso de BB) + Má perfusão = Choque hipovolêmico grave.

Resumo-Chave

Pacientes idosos em uso de betabloqueadores podem não apresentar taquicardia no choque hipovolêmico, mascarando a gravidade. A hipotensão persistente e sinais de má perfusão, mesmo com normocardia, indicam choque grave que requer transfusão e controle da fonte de sangramento.

Contexto Educacional

O choque hipovolêmico é a principal causa de morte evitável no trauma, sendo crucial seu reconhecimento e manejo rápido. A avaliação inicial segue o protocolo ATLS (Advanced Trauma Life Support), que preconiza a abordagem sistemática da via aérea, respiração, circulação, disfunção neurológica e exposição. No contexto circulatório, a hipotensão (PA 70x30 mmHg) e sinais de má perfusão (extremidades frias, pulsos filiformes, descorado, diurese reduzida) são indicativos de choque grave. A classificação do choque hemorrágico pelo ATLS em graus I a IV baseia-se na perda volêmica estimada e nos parâmetros fisiológicos. O paciente em questão, com hipotensão e má perfusão, mesmo com frequência cardíaca normocárdica (60 bpm), sugere um choque hipovolêmico grave (grau III ou IV). A normocardia, neste caso, é um achado crítico, pois o uso de carvedilol (betabloqueador) atenua a resposta taquicárdica compensatória, comum em pacientes idosos, mascarando a real gravidade do quadro. A conduta imediata para choque hipovolêmico grave inclui a reposição volêmica agressiva, preferencialmente com hemocomponentes (protocolo de transfusão maciça se necessário), e a identificação e controle rápido da fonte de sangramento. Ferramentas como o ultrassom FAST (Focused Assessment with Sonography for Trauma) são essenciais para detectar sangramento intra-abdominal ou pericárdico. Em casos de instabilidade hemodinâmica persistente e FAST positivo ou suspeita clínica, a laparotomia exploradora ou outros procedimentos cirúrgicos para controle do sangramento são mandatórios. O ácido tranexâmico, já administrado, é um antifibrinolítico que reduz a mortalidade em pacientes traumatizados com sangramento significativo.

Perguntas Frequentes

Como classificar o grau de choque hipovolêmico em trauma?

O choque hipovolêmico é classificado em graus I a IV pelo ATLS, com base na perda volêmica estimada e nos parâmetros fisiológicos como frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória e débito urinário. Hipotensão e má perfusão indicam graus mais avançados e maior gravidade.

Qual a conduta inicial para choque hipovolêmico grave em trauma?

A conduta inicial inclui controle da via aérea e ventilação, acesso venoso calibroso, reposição volêmica com cristaloides, administração de ácido tranexâmico e, em choque grave, transfusão de hemocomponentes e identificação/controle rápido da fonte de sangramento, seja cirúrgico ou por embolização.

Por que pacientes idosos ou em uso de betabloqueadores podem não apresentar taquicardia no choque?

Pacientes idosos têm menor reserva fisiológica e resposta adrenérgica atenuada devido ao envelhecimento. Betabloqueadores bloqueiam a resposta taquicárdica compensatória do coração, mascarando a gravidade do choque, tornando a hipotensão e a má perfusão sinais mais críticos para avaliação.

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