Choque Hipovolêmico no Trauma Abdominal: Diagnóstico e Conduta

FMABC - Faculdade de Medicina do ABC Paulista (SP) — Prova 2024

Enunciado

Homem de 24 anos sofreu capotamento de motocicleta e foi trazido ao Hospital de Trauma pelo SAMU. Ao exame, observou-se que o paciente estava com colar cervical, falando espontaneamente, sem estase jugular. Encontrava-se taquicárdico (FC: 131 bpm), hipocorado, PA: 85 x 50 mmHg, pouco agitado, com escoriações em abdome superior e tórax. BRNF. Sobre o caso, pode-se afirmar corretamente:

Alternativas

  1. A) o ATLS™ é uma modalidade de atendimento ao politraumatizado que tem a seguinte avaliação em sequência: vias aéreas, respiração, circulação, exposição e colar cervical.
  2. B) esse paciente pode apresentar pneumotórax hipertensivo que deve ser drenado após a confirmação radiológica.
  3. C) paciente apresenta Escala de Coma de Glasgow de 14 em virtude da agitação observada na avaliação neurológica.
  4. D) esse paciente pode ter um choque hipovolêmico por trauma abdominal fechado decorrente de lesão esplênica.
  5. E) A ausência da tríade de Beck afasta a hipótese diagnóstica de tamponamento cardíaco por hemopericárdio.

Pérola Clínica

Hipotensão + Taquicardia + Trauma abdominal fechado → Choque hipovolêmico (hemoperitônio) até que se prove o contrário.

Resumo-Chave

Em pacientes jovens com trauma fechado de alta energia, a taquicardia e hipotensão são sinais clássicos de choque hipovolêmico classe III ou IV. O abdome é um 'sítio oculto' frequente de hemorragia, com o baço sendo o órgão mais lesado.

Contexto Educacional

O atendimento inicial ao politraumatizado segue a sistematização do ABCDE do ATLS. No cenário de um trauma abdominal fechado com instabilidade hemodinâmica (hipotensão e taquicardia), a principal suspeita deve ser o choque hipovolêmico por hemoperitônio. O abdome é uma cavidade que pode albergar grandes volumes de sangue sem distensão externa óbvia nas fases iniciais. O baço e o fígado são os órgãos mais frequentemente acometidos. A agitação psicomotora observada no paciente é um sinal precoce de hipoperfusão cerebral decorrente do choque, e não necessariamente um trauma cranioencefálico isolado. É crucial diferenciar o choque hipovolêmico do choque obstrutivo (como no pneumotórax hipertensivo ou tamponamento cardíaco). No pneumotórax hipertensivo, haveria desvio de traqueia e turgência jugular (ausente no caso). No tamponamento, a tríade de Beck (hipotensão, bulhas abafadas e turgência jugular) é o sinal clássico, mas sua ausência não exclui o diagnóstico. O FAST (Focused Assessment with Sonography for Trauma) é a ferramenta de escolha à beira-leito para identificar líquido livre na cavidade abdominal ou pericárdica em pacientes instáveis.

Perguntas Frequentes

Como classificar o choque hemorrágico segundo o ATLS?

O ATLS classifica o choque hemorrágico em quatro classes baseadas na perda volêmica estimada. A Classe I envolve perda de até 15% (750ml), com sinais vitais estáveis. A Classe II (15-30%) apresenta taquicardia e redução da pressão de pulso. A Classe III (30-40%) é marcada por hipotensão franca, taquicardia acentuada e alteração do estado mental (agitação/confusão). A Classe IV (>40%) representa choque grave com risco iminente de morte, oligúria extrema e letargia. O paciente do caso, com PA 85x50 mmHg e FC 131 bpm, enquadra-se no choque Classe III, exigindo ressuscitação volêmica imediata e controle da fonte de sangramento.

Por que o baço é frequentemente lesionado no trauma abdominal fechado?

O baço é o órgão sólido mais comumente lesionado em traumas abdominais não penetrantes (fechados), como acidentes automobilísticos e quedas. Sua localização no quadrante superior esquerdo, sob o gradil costal inferior, o torna vulnerável a impactos diretos ou desacelerações bruscas que causam avulsão de seu pedículo vascular ou lacerações capsulares. O diagnóstico é sugerido pela dor no hipocôndrio esquerdo (sinal de Kehr) e sinais de irritação peritoneal se houver hemoperitônio volumoso. A estabilidade hemodinâmica dita se o tratamento será conservador (em centros de trauma) ou cirúrgico (esplenectomia ou colorrafia).

Qual a conduta imediata no pneumotórax hipertensivo?

O pneumotórax hipertensivo é um diagnóstico estritamente clínico e constitui uma emergência médica que não deve aguardar confirmação radiológica. Os sinais clássicos incluem insuficiência respiratória grave, desvio da traqueia, ausência de murmúrio vesicular unilateral e hipotensão (devido à redução do retorno venoso). A conduta imediata é a descompressão torácica por agulha (toracocentese) no 5º espaço intercostal, linha axilar anterior (em adultos), seguida obrigatoriamente pela drenagem torácica em selo d'água. Retardar o tratamento para realizar um raio-X pode levar à parada cardiorrespiratória por choque obstrutivo.

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