Manejo do Choque Hemorrágico e Resposta Transitória no Trauma

MedEvo Simulado — Prova 2026

Enunciado

Uma mulher de 34 anos é levada ao pronto-socorro após uma colisão frontal de automóvel em alta velocidade contra um anteparo fixo. Na chegada, a paciente apresenta-se confusa (Glasgow 13), pálida e com sudorese fria. Seus sinais vitais iniciais revelam frequência cardíaca de 128 bpm, pressão arterial de 88/50 mmHg, frequência respiratória de 26 irpm e saturação de oxigênio de 93% em ar ambiente. O exame físico demonstra dor intensa à palpação de hipocôndrio esquerdo e sinal de Kehr positivo. Seguindo o protocolo de atendimento inicial, foi administrado um bolus de 1.000 mL de Ringer Lactato aquecido, resultando em uma melhora momentânea da pressão arterial para 102/64 mmHg e redução da frequência cardíaca para 110 bpm. No entanto, após 15 minutos, a paciente volta a apresentar pressão arterial de 84/46 mmHg e frequência cardíaca de 138 bpm. O exame de FAST (Focused Assessment with Sonography for Trauma) revela líquido livre significativo no espaço esplenorrenal e na pelve. Diante desse quadro clínico, a conduta mais adequada é:

Alternativas

  1. A) Início de infusão contínua de noradrenalina para manutenção da pressão arterial média acima de 65 mmHg enquanto se aguarda a prova cruzada sanguínea.
  2. B) Ativação do protocolo de transfusão maciça com hemoderivados em razão balanceada e transferência imediata para o centro cirúrgico.
  3. C) Administração imediata de mais 2.000 mL de solução cristaloide isotônica aquecida para estabilização hemodinâmica antes de exames de imagem.
  4. D) Encaminhamento imediato para Tomografia Computadorizada de abdome e pelve com contraste para estadiamento da lesão orgânica.

Pérola Clínica

Resposta transitória + FAST positivo no trauma = Sangramento ativo → Centro Cirúrgico + Sangue.

Resumo-Chave

Pacientes que apresentam melhora hemodinâmica temporária após cristaloides (respondedores transitórios) indicam perda volêmica contínua, exigindo hemoderivados e intervenção cirúrgica imediata.

Contexto Educacional

O manejo do choque hemorrágico no trauma evoluiu para a estratégia de Ressuscitação de Controle de Danos. Esta abordagem prioriza a limitação do uso de cristaloides (máximo 1L conforme ATLS 10ª ed.) para evitar a 'tríade da morte' (acidose, hipotermia e coagulopatia). Em pacientes com resposta transitória, a reposição volêmica deve ser feita precocemente com sangue e componentes, enquanto se providencia o controle mecânico da hemorragia. O sinal de Kehr (dor referida no ombro esquerdo) e a dor no hipocôndrio esquerdo sugerem fortemente lesão esplênica, o órgão sólido mais comumente lesado no trauma abdominal fechado. O FAST é uma ferramenta crucial à beira-leito para identificar líquido livre peritoneal em pacientes instáveis, direcionando a conduta cirúrgica sem a necessidade de exames de imagem demorados. A decisão entre tratamento conservador ou cirúrgico na lesão esplênica depende fundamentalmente da estabilidade hemodinâmica, e não apenas do grau da lesão na TC.

Perguntas Frequentes

O que caracteriza um 'respondedor transitório' no trauma?

Um respondedor transitório é o paciente que apresenta melhora inicial dos sinais vitais (aumento da PA, queda da FC) após o bolus inicial de cristaloides, mas volta a deteriorar hemodinamicamente assim que a infusão é reduzida ou interrompida. Isso indica uma perda sanguínea contínua (sangramento ativo) de aproximadamente 20% a 40% do volume total (Choque Classe III). Esses pacientes necessitam de hemoderivados e controle cirúrgico imediato da fonte de sangramento.

Quando está indicada a ativação do Protocolo de Transfusão Maciça (PTM)?

O PTM é ativado em pacientes com hemorragia grave e instabilidade hemodinâmica persistente ou resposta transitória. Critérios comuns incluem o escore ABC (Assessment of Blood Consumption) ≥ 2, que avalia: mecanismo penetrante, PA sistólica ≤ 90 mmHg, FC ≥ 120 bpm e FAST positivo. O protocolo visa administrar hemoderivados (concentrado de hemácias, plasma e plaquetas) em uma razão balanceada (geralmente 1:1:1) para evitar a coagulopatia traumática.

Por que a Tomografia é contraindicada neste caso?

A Tomografia Computadorizada (TC) é o padrão-ouro para estadiamento de lesões em pacientes hemodinamicamente ESTÁVEIS. No caso descrito, a paciente é uma respondedora transitória com sinais de choque persistente e FAST positivo (líquido livre). Levá-la à sala de TC, um ambiente fora do monitoramento crítico e longe da intervenção definitiva, coloca a vida em risco. A instabilidade hemodinâmica com foco de sangramento abdominal identificado pelo FAST é indicação direta de laparotomia exploradora.

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