Manejo do Choque Hemorrágico e Reposição Volêmica no Trauma

FMABC - Faculdade de Medicina do ABC Paulista (SP) — Prova 2024

Enunciado

Mulher de 48 anos sofre ferimento corto-contuso acidental na mão e no punho, por faca de cozinha. Refere sangramento abundante até chegar ao Pronto-Socorro. Dá entrada na emergência consciente, muito ansiosa, apresentando palidez, sudorese, pele fria e turgor diminuído. PA = 95/65 mmHg; FC = 120 bpm; Perf. > 2 seg.; Sat. O₂ = 96%. Realizada compressão externa do sangramento a contento. Em relação à correta reposição volêmica dessa paciente, assinale a alternativa correta:

Alternativas

  1. A) Não há indicação de reposição volêmica pelo risco de edema agudo pulmonar; deve- se proceder sutura do ferimento + profilaxia antitetânica.
  2. B) Deve-se indicar reposição volêmica cuidadosa com Ringer Lactato, considerar emprego de hemocomponentes e controle rigoroso da diurese.
  3. C) Caso não haja melhora após infusão de 2 litros de sangue total, administrar 1 Unidade de albumina IV.
  4. D) Deve-se evitar reposição volêmica endovenosa pelo risco de sobrecarga atrial, o que aumenta o risco de arritmias cardíacas; apenas por via oral.
  5. E) Indicar reposição volêmica vigorosa (3 a 4 L) por via intravenosa com soluções cristaloides pela presença de choque hemorrágico.

Pérola Clínica

Choque hemorrágico → Priorize Ringer Lactato parcimonioso e considere hemocomponentes precoces para evitar a tríade da morte.

Resumo-Chave

A reposição volêmica no trauma evoluiu para evitar a sobrecarga de cristaloides (coagulopatia dilucional). O foco é a estabilidade hemodinâmica e perfusão orgânica, monitorada pelo débito urinário.

Contexto Educacional

O manejo do choque hemorrágico no trauma sofreu mudanças drásticas na última década, migrando da reposição agressiva de fluidos para a 'Ressuscitação de Controle de Danos'. O objetivo é manter uma pressão arterial mínima necessária para perfusão cerebral (hipotensão permissiva) até que a fonte do sangramento seja controlada. A administração excessiva de cristaloides (acima de 1-2 litros) está associada a piores desfechos, incluindo edema pulmonar, síndrome compartimental abdominal e a exacerbação da tríade da morte (acidose, hipotermia e coagulopatia). A introdução precoce de plasma, plaquetas e concentrado de hemácias na proporção 1:1:1 é a estratégia de escolha no choque grave.

Perguntas Frequentes

Quais os sinais de choque Classe III no trauma?

O choque Classe III é caracterizado por perda volêmica de 30-40% (1500-2000ml), FC > 120 bpm, queda da pressão arterial sistólica, taquipneia (25-35 irpm), redução acentuada do débito urinário e alteração do estado mental (ansiedade/confusão).

Por que o Ringer Lactato é preferível ao Soro Fisiológico?

O Ringer Lactato é uma solução balanceada que se assemelha mais à composição eletrolítica do plasma. O uso de grandes volumes de Soro Fisiológico (0,9%) está associado ao desenvolvimento de acidose metabólica hiperclorêmica, que pode piorar a coagulopatia no trauma.

Qual o alvo do débito urinário na ressuscitação volêmica?

Em adultos, o alvo terapêutico para considerar uma perfusão tecidual adequada é um débito urinário de pelo menos 0,5 ml/kg/hora. Em crianças, o alvo é de 1 ml/kg/hora (exceto lactentes, que é 2 ml/kg/hora).

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