Choque Cardiogênico por Miocardite em Pediatria: Conduta Inicial

USP/HCFMUSP - Hospital das Clínicas da FMUSP (SP) — Prova 2025

Enunciado

Paciente de 10 meses de idade, previamente hígido, é levado ao pronto atendimento com história de febre de até 39 °C há dois dias. Responsável refere que não está aceitando nenhum alimento sólido desde o início do quadro febril, apenas seio materno. Apresenta cerca de 4 diureses por dia. Ao exame físico, encontra-se em bom estado geral, mantendo mucosas úmidas, sem alterações cardíaca, pulmonar e abdominal; otoscopia e oroscopia conforme imagens a seguir: Após manejo adequado, o paciente ainda manteve febre por mais dois dias, com melhora após este período e sem recorrência. Nos dias subsequentes, evoluiu com inapetência, vômitos e hipoatividade, sintomas que foram piorando progressivamente. Foi levado ao pronto-socorro, novamente, após cerca de 10 dias do atendimento anterior. Na admissão, o paciente estava letárgico e pálido, sendo levado à sala de emergência. A seguir, encontra-se a descrição da avaliação sistematizada, os dados de monitorização e a imagem da ultrassonografia pulmonar, com o padrão observado em todos os campos pulmonares: A: pérvia B: murmúrio vesicular presente, com estertores bilateralmente, FR 55 ipm, saturação 93%, tiragem subdiafragmática C: bulhas rítmicas, 2 tempos, normofonéticas, sem sopros, tempo de enchimento capilar de 6 segundos, pulsos finos, fígado a 5 cm do rebordo costal direito D: abertura ocular e resposta verbal ao estímulo doloroso; localiza dor; glicemia capilar 75 mg/dL E: nada digno de nota, fontanela anterior normotensa Considerando a principal hipótese diagnóstica, qual é a conduta inicial indicada para estabilizar o paciente?

Alternativas

  1. A) Introduzir cefalosporina de 3ª geração.
  2. B) Expandir com solução cristaloide.
  3. C) Acoplar em ventilação não invasiva.
  4. D) Iniciar inotrópico em bomba de infusão contínua.

Pérola Clínica

Lactente com pródromo viral seguido de choque frio (TEC >3s, pulsos finos) e congestão (estertores, hepatomegalia) = pensar em miocardite aguda.

Resumo-Chave

O quadro clínico é de choque cardiogênico, evidenciado pela má perfusão (TEC 6s) e congestão (estertores, hepatomegalia, linhas B na USG). Nesses casos, a expansão volêmica pode piorar o edema pulmonar; a prioridade é melhorar a contratilidade cardíaca com inotrópicos.

Contexto Educacional

A miocardite aguda, frequentemente de etiologia viral, é uma causa importante de insuficiência cardíaca e choque cardiogênico em crianças e lactentes previamente hígidos. A apresentação clássica envolve um pródromo de infecção viral (febre, sintomas respiratórios ou gastrointestinais) seguido por uma deterioração clínica rápida, marcada por sinais de baixo débito cardíaco e congestão sistêmica e pulmonar. O diagnóstico diferencial de um lactente com choque é amplo, incluindo sepse, hipovolemia e distúrbios metabólicos. No entanto, a combinação de má perfusão periférica (choque frio, com tempo de enchimento capilar prolongado e pulsos finos) e sinais de congestão (taquipneia, estertores, hepatomegalia) aponta fortemente para uma disfunção miocárdica primária. A ultrassonografia point-of-care (POCUS) é uma ferramenta valiosa, com a visualização de linhas B pulmonares difusas confirmando o edema intersticial e a avaliação cardíaca podendo mostrar contratilidade globalmente diminuída. O manejo inicial do choque cardiogênico difere fundamentalmente do choque hipovolêmico ou distributivo. A prioridade é reduzir a pós-carga e aumentar a contratilidade cardíaca. A administração de fluidos deve ser extremamente cautelosa (se houver), pois pode exacerbar o edema pulmonar. A terapia de primeira linha consiste na infusão contínua de agentes inotrópicos (ex: milrinona, dobutamina) e, se necessário, vasopressores (ex: adrenalina). Suporte ventilatório, seja não invasivo ou invasivo, também é frequentemente necessário para reduzir o trabalho respiratório e melhorar a oxigenação.

Perguntas Frequentes

Quais são os sinais clássicos de choque cardiogênico em um lactente?

Os sinais incluem taquicardia desproporcional à febre, taquipneia, esforço respiratório, pulsos periféricos finos, tempo de enchimento capilar prolongado (>3s), extremidades frias, hepatomegalia congestiva e, em casos graves, hipotensão e alteração do nível de consciência.

Por que iniciar inotrópicos é a prioridade no choque cardiogênico?

A prioridade é melhorar a contratilidade miocárdica e o débito cardíaco. Drogas inotrópicas, como dobutamina ou milrinona, aumentam a força de contração do coração, melhorando a perfusão sistêmica e aliviando a congestão, ao contrário da expansão volêmica que pode agravar o quadro.

Como a ultrassonografia pulmonar ajuda a diferenciar os tipos de choque?

A presença difusa de linhas B na ultrassonografia pulmonar, como descrito no caso, é um forte indicativo de edema pulmonar intersticial. Em um contexto de choque, isso sugere uma etiologia cardiogênica, pois reflete o aumento da pressão hidrostática nos capilares pulmonares por falência ventricular.

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