Cetoacidose Diabética: Acidose Metabólica Pós-Tratamento

PSU-MG - Processo Seletivo Unificado de Minas Gerais — Prova 2021

Enunciado

Mulher de 23 anos encontra-se na sala de emergência em tratamento para cetoacidose diabética há 3 horas. É portadora de diabetes mellitus tipo 1. Está recebendo solução EV (500ml de cloreto de sódio 0,9% e 20ml de cloreto de potássio 10%) a 250ml/h. Recebe, ainda, insulina regular 6Ul/h pela via EV na bomba de infusão contínua. Os dados vitais são PA 110/78mmHg, FC 96bpm, FR 25ipm. Seu peso é de 60Kg e apresentou diurese de 250ml desde a admissão. Exames de laboratório 3 horas após a admissão evidenciam: Na+ 141 mEq/L; K+ 3,8mEq/L; c1- 95mEq/L; creatinina 0,9mg/dl; glicemia 194mg/dl; gasometria arterial pH 7,20, pO₂ 92mmHg, pCO₂ 28mmHg; HCO₃- 13mEq/L; SaO₂ 95%; lactato 1,5mEq/L. Após 12h da admissão, a paciente queixa-se de fome. Encontra-se bem disposta, alerta e orientada, com as mucosas coradas e hidratadas. Apresentou 800ml de diurese no período. Exames de laboratório evidenciam: Na+ 132mEq/L; K+ 3,6mEq/L; CI 105mEq/L; glicemia 135mg/dl; gasometria arterial: pH 7,31, pCO₂ 25mmHg, HCO3 16mEq/L, base excess-5,3. A interpretação MAIS ADEQUADA para os achados gasométricos neste momento é:

Alternativas

  1. A) Há acidose metabólica com anion gap normal causada, em parte, pela perda urinária de corpos cetônicos
  2. B) Há acidose metabólica que se deve, principalmente, ao acúmulo de ácido hidroxibutírico.
  3. C) Há alcalose respiratória que se deve à tentativa exacerbada de compensação da cetoacidose diabética durante as primeiras horas
  4. D) Há distúrbio ácido-base misto, com acidose metabólica e acidose respiratória, por fadiga da musculatura respiratória

Pérola Clínica

Resolução da CAD → acidose metabólica com AG normal (hiperclorêmica) devido à perda urinária de cetonas e infusão de Cl-.

Resumo-Chave

Durante a recuperação da cetoacidose diabética, com a resolução da acidose por cetoácidos (alto AG), é comum o desenvolvimento de uma acidose metabólica com anion gap normal (hiperclorêmica), devido à perda urinária de corpos cetônicos e à infusão de grandes volumes de cloreto de sódio.

Contexto Educacional

A cetoacidose diabética (CAD) é uma complicação grave do diabetes mellitus, caracterizada por hiperglicemia, acidose metabólica com anion gap elevado e cetonemia/cetonúria. O tratamento visa corrigir a desidratação, a hiperglicemia e a acidose, além de repor eletrólitos. Durante a fase de recuperação, é comum observar uma transição no perfil ácido-base, que é crucial para a interpretação adequada e para evitar intervenções desnecessárias. A fisiopatologia da acidose metabólica na CAD inicialmente envolve o acúmulo de cetoácidos, que são ânions não mensuráveis, elevando o anion gap. Com o tratamento, a produção de cetoácidos diminui e eles são metabolizados ou excretados. No entanto, a excreção urinária de cetoácidos (que são ânions) pode levar à perda de cátions como sódio e potássio, forçando o rim a reter cloreto para manter a eletroneutralidade, resultando em hipercloremia. Além disso, a infusão de grandes volumes de solução salina isotônica (cloreto de sódio 0,9%) contribui para a carga de cloreto. Essa combinação de fatores leva ao desenvolvimento de uma acidose metabólica com anion gap normal (acidose hiperclorêmica) na fase de recuperação da CAD. É importante reconhecer que essa acidose é um fenômeno esperado e geralmente benigno, não indicando falha terapêutica, desde que os outros parâmetros da CAD (glicemia, pH, bicarbonato) estejam melhorando. O manejo deve focar na resolução completa da CAD e na transição para a insulina subcutânea, sem a necessidade de tratamento específico para a acidose hiperclorêmica, que se resolve espontaneamente.

Perguntas Frequentes

Como se calcula o anion gap e qual sua importância na cetoacidose diabética?

O anion gap (AG) é calculado por Na+ - (Cl- + HCO₃-). Na fase inicial da CAD, o AG é elevado devido ao acúmulo de cetoácidos (beta-hidroxibutirato, acetoacetato). Sua normalização indica a resolução da acidose por cetoácidos.

Por que ocorre acidose metabólica com anion gap normal na fase de recuperação da CAD?

Isso ocorre por dois motivos principais: a perda urinária de cetoácidos (que são ânions não mensuráveis) arrasta consigo cátions, levando à retenção de cloreto para manter a eletroneutralidade; e a infusão de grandes volumes de cloreto de sódio também contribui para a hipercloremia.

Quais os critérios de resolução da cetoacidose diabética?

Os critérios incluem glicemia < 200 mg/dL, bicarbonato sérico ≥ 15 mEq/L, pH venoso > 7,30 e anion gap < 12 mEq/L. A resolução clínica também é importante, com o paciente alerta e tolerando dieta oral.

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