Famema/HCFMM - Faculdade de Medicina de Marília (SP) — Prova 2026
Paciente jovem de 22 anos, portador de diabetes mellitus tipo 1 há 6 anos, chega ao prontosocorro com história de náuseas, vômitos e dor abdominal difusa há 12 horas. Refere poliúria nos últimos dias. Ao exame físico: PA: 94x60 mmHg; FC: 118 bpm; FR: 32 irpm (respiração de Kussmaul); temperatura axilar: 37,5°C; com mucosas secas, pulsos periféricos filiformes. Apresenta nos exames complementares iniciais: glicemia: 468 mg/dL; gasometria arterial com pH: 7,12 e HCO₃⁻: 9 mEq/L; sódio: 135 mEq/L; potássio: 3,1 mEq/L e cetonemia: positiva. Diante desse diagnóstico, qual deve ser a prioridade terapêutica?
K < 3,3 mEq/L na CAD → Repor potássio ANTES de iniciar insulina.
O manejo inicial da CAD foca na estabilização hemodinâmica e correção eletrolítica. A insulinoterapia deve ser postergada se o potássio estiver abaixo de 3,3 mEq/L para evitar arritmias fatais.
A cetoacidose diabética (CAD) é uma emergência endócrina caracterizada pela tríade de hiperglicemia, acidose metabólica e cetonemia. O déficit de insulina e o excesso de hormônios contrarreguladores levam à lipólise desenfreada. O manejo clínico exige vigilância rigorosa do balanço hídrico e dos eletrólitos. A reposição volêmica inicial com solução salina a 0,9% visa restaurar a perfusão tecidual e reduzir a resistência à insulina. A monitorização do potássio é crítica, pois o déficit corporal total de potássio é quase universal na CAD, apesar de níveis séricos inicialmente normais ou altos devido à acidose.
A insulina promove o influxo de potássio para o meio intracelular através da ativação da bomba Na+/K+-ATPase. Em pacientes com cetoacidose diabética que já apresentam hipocalemia (K < 3,3 mEq/L), o início imediato da insulina pode reduzir drasticamente os níveis séricos de potássio, levando a arritmias cardíacas graves, paralisia muscular respiratória e óbito. Portanto, a prioridade absoluta é elevar o potássio acima desse limiar antes de qualquer dose de insulina.
O objetivo inicial não é normalizar a glicemia rapidamente, mas sim reverter a cetose e a acidose. Geralmente, busca-se uma queda de 50 a 70 mg/dL por hora. Quando a glicemia atinge níveis em torno de 200-250 mg/dL, deve-se adicionar soro glicosado à hidratação venosa para permitir a manutenção da infusão de insulina necessária para fechar o gap aniônico sem causar hipoglicemia.
O uso de bicarbonato de sódio é controverso e geralmente reservado para casos de acidose extrema. Segundo a maioria dos consensos (como o da ADA), a reposição só deve ser considerada se o pH arterial for inferior a 6,9. Acima desse valor, a correção da volemia e a insulinoterapia costumam ser suficientes para reverter a acidose metabólica através da oxidação dos corpos cetônicos em bicarbonato endógeno.
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