Cetoacidose Diabética: Manifestações e Diagnóstico Diferencial

HC ICC - Hospital do Câncer - Instituto do Câncer do Ceará — Prova 2026

Enunciado

Paciente adolescente, 14 anos, sexo masculino, previamente hígido, comparece ao seu pronto atendimento com os seguintes sintomas: polidipsia, poliúria, noctúria, polifagia, anorexia, náuseas e vômitos, dor abdominal e perda ponderal. Na admissão ao serviço de urgência, as principais alterações presentes no exame físico foram hálito cetônico, rubor facial, desidratação, taquicardia, hipotensão, redução da perfusão periférica, hiperventilação e dor abdominal, além de intensa sonolência e rebaixamento do nível de consciência. Após as medidas dos sinais vitais, a enfermeira avisa que, ao medir a glicemia capilar do paciente, apareceu a sigla HI no glicosímetro. Desta forma, é correto afirmar que:

Alternativas

  1. A) A dor abdominal pode ser intensa, mas nunca chega a ponto de simular apendicite, pancreatite ou abdome agudo cirúrgico.
  2. B) Nos casos mais graves de CAD pode haver elevação da amilase sérica, o que não indica, necessariamente, a ocorrência de pancreatite.
  3. C) Laboratorialmente a CAD caracteriza-se por: hiperglicemia, acidose respiratória com queda do ânion-gap e presença de cetonemia, mas não de cetonúria.
  4. D) Na maioria dos casos a dor abdominal não desaparece com a hidratação, correção dos distúrbios eletrolíticos e insulinoterapia, sendo necessário realizar escalonamento da dor.

Pérola Clínica

Dor abdominal na CAD simula abdome agudo; amilase ↑ nem sempre indica pancreatite.

Resumo-Chave

A cetoacidose diabética (CAD) cursa com acidose metabólica e hiato aniônico elevado; a dor abdominal é frequente e costuma regredir com a correção dos distúrbios metabólicos, não devendo ser confundida com abdome agudo cirúrgico.

Contexto Educacional

A cetoacidose diabética (CAD) é uma complicação aguda grave do Diabetes Mellitus, resultante da deficiência absoluta ou relativa de insulina combinada com o excesso de hormônios contrarreguladores (glucagon, catecolaminas, cortisol). O quadro clínico é marcado por sinais de desidratação, hálito cetônico e respiração de Kussmaul (hiperventilação compensatória à acidose metabólica). A dor abdominal pode ser tão intensa que mimetiza um abdome agudo cirúrgico, mas a conduta inicial deve focar na estabilização hemodinâmica, reposição de potássio e insulinoterapia venosa contínua para fechar o anion gap.

Perguntas Frequentes

Por que a cetoacidose diabética causa dor abdominal?

A dor abdominal na CAD é comum, especialmente em crianças e adolescentes com acidose grave (pH < 7,2). A fisiopatologia envolve o atraso no esvaziamento gástrico (gastroparesia diabética aguda), íleo paralítico induzido pela acidose e desequilíbrios eletrolíticos, como a hipocalemia, que afetam a motilidade da musculatura lisa intestinal. Além disso, a própria cetose e a desidratação grave contribuem para a irritação peritoneal funcional. Na maioria dos casos, a dor é difusa e melhora significativamente nas primeiras horas de tratamento com hidratação e insulinoterapia.

Como interpretar a elevação da amilase na CAD?

A hiperamilasemia ocorre em até 25% dos pacientes com CAD e não é um marcador específico de pancreatite aguda nesse contexto. A elevação pode ser decorrente de amilase de origem salivar ou por uma redução do clearance renal da enzima devido à desidratação. Para o diagnóstico de pancreatite concomitante, deve-se valorizar a dosagem de lipase (mais específica), a persistência da dor após a correção da acidose e achados em exames de imagem, como a tomografia computadorizada de abdome.

Quais são os critérios bioquímicos para o diagnóstico de CAD?

O diagnóstico de CAD baseia-se na tríade: 1) Hiperglicemia (geralmente > 250 mg/dL, embora possa ser menor na CAD euglicêmica); 2) Acidose metabólica (pH arterial < 7,3 ou bicarbonato sérico < 15-18 mEq/L); e 3) Cetonemia (presença de beta-hidroxibutirato no sangue) ou cetonúria moderada/grave. O hiato aniônico (anion gap) estará tipicamente elevado (> 10-12), refletindo o acúmulo de cetoácidos não mensurados.

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