HC ICC - Hospital do Câncer - Instituto do Câncer do Ceará — Prova 2026
Paciente adolescente, 14 anos, sexo masculino, previamente hígido, comparece ao seu pronto atendimento com os seguintes sintomas: polidipsia, poliúria, noctúria, polifagia, anorexia, náuseas e vômitos, dor abdominal e perda ponderal. Na admissão ao serviço de urgência, as principais alterações presentes no exame físico foram hálito cetônico, rubor facial, desidratação, taquicardia, hipotensão, redução da perfusão periférica, hiperventilação e dor abdominal, além de intensa sonolência e rebaixamento do nível de consciência. Após as medidas dos sinais vitais, a enfermeira avisa que, ao medir a glicemia capilar do paciente, apareceu a sigla HI no glicosímetro. Desta forma, é correto afirmar que:
Dor abdominal na CAD simula abdome agudo; amilase ↑ nem sempre indica pancreatite.
A cetoacidose diabética (CAD) cursa com acidose metabólica e hiato aniônico elevado; a dor abdominal é frequente e costuma regredir com a correção dos distúrbios metabólicos, não devendo ser confundida com abdome agudo cirúrgico.
A cetoacidose diabética (CAD) é uma complicação aguda grave do Diabetes Mellitus, resultante da deficiência absoluta ou relativa de insulina combinada com o excesso de hormônios contrarreguladores (glucagon, catecolaminas, cortisol). O quadro clínico é marcado por sinais de desidratação, hálito cetônico e respiração de Kussmaul (hiperventilação compensatória à acidose metabólica). A dor abdominal pode ser tão intensa que mimetiza um abdome agudo cirúrgico, mas a conduta inicial deve focar na estabilização hemodinâmica, reposição de potássio e insulinoterapia venosa contínua para fechar o anion gap.
A dor abdominal na CAD é comum, especialmente em crianças e adolescentes com acidose grave (pH < 7,2). A fisiopatologia envolve o atraso no esvaziamento gástrico (gastroparesia diabética aguda), íleo paralítico induzido pela acidose e desequilíbrios eletrolíticos, como a hipocalemia, que afetam a motilidade da musculatura lisa intestinal. Além disso, a própria cetose e a desidratação grave contribuem para a irritação peritoneal funcional. Na maioria dos casos, a dor é difusa e melhora significativamente nas primeiras horas de tratamento com hidratação e insulinoterapia.
A hiperamilasemia ocorre em até 25% dos pacientes com CAD e não é um marcador específico de pancreatite aguda nesse contexto. A elevação pode ser decorrente de amilase de origem salivar ou por uma redução do clearance renal da enzima devido à desidratação. Para o diagnóstico de pancreatite concomitante, deve-se valorizar a dosagem de lipase (mais específica), a persistência da dor após a correção da acidose e achados em exames de imagem, como a tomografia computadorizada de abdome.
O diagnóstico de CAD baseia-se na tríade: 1) Hiperglicemia (geralmente > 250 mg/dL, embora possa ser menor na CAD euglicêmica); 2) Acidose metabólica (pH arterial < 7,3 ou bicarbonato sérico < 15-18 mEq/L); e 3) Cetonemia (presença de beta-hidroxibutirato no sangue) ou cetonúria moderada/grave. O hiato aniônico (anion gap) estará tipicamente elevado (> 10-12), refletindo o acúmulo de cetoácidos não mensurados.
Responda esta e mais de 150 mil questões comentadas no MedEvo — a plataforma de residência médica com IA.
Responder questão no MedEvo