Cetoacidose Diabética: Manejo da Hipocalemia e Insulina

HPEV - Hospital Professor Edmundo Vasconcelos (SP) — Prova 2023

Enunciado

Mulher de 22 anos de idade é admitida na unidade de emergência por sonolência, vômitos e dor abdominal há 6 horas. Na admissão, estava sonolenta, com escala de coma de Glasgow de 14 (abertura ocular: 4 / resposta verbal: 4 / resposta motora: 6) e desidratada. A pressão arterial era de 90x70mmHg, frequência cardíaca de 120bpm, frequência respiratória de 24irpm, saturação de oxigênio de 99% em ar ambiente e tempo de enchimento capilar de 3 segundos. Os pulsos estavam finos e tinha dor à palpação abdominal difusamente, sem outras alterações ao exame. A glicemia capilar era de 390mg/dL. Neste momento, foi iniciada expansão volêmica com solução de NaCl 0,9% 20mL/kg. Os exames laboratoriais evidenciaram: hemoglobina 12,1g/dL (VR 12 - 17g/dL); leucócitos 10.600/mm³ (VR 4.000 -  11.000/mm³), com 84% de segmentados e 12% de linfócitos; plaquetas 210.000/mm³ (VR 140.000 - 450.000/mm³); ureia 60mg/dL (VR 10 - 50mg/dL); creatinina de 1,0mg/dL (VR 0,7 - 1,3mg/dL); sódio 130mEq/L (VR 136 - 145mEq/L); potássio 3,0mEq/L (VR 3,5 - 5,1mEq/L); cloro 92mEq/L (VR 98 - 107mEq/L) e glicose sérica de 400mg/dL (VR < 99mg/dL). A urina tipo 1 apresentou cetonúria 3+. A gasometria arterial tinha: pH 7,17 (VR 7,35 - 7,45); PaO₂ 120mmHg (VR 80 - 100mmHg); PaCO₂ 29mmHg (VR 35 - 45mmHg) e bicarbonato 15mEq/L (VR 22 - 26mEq/L), com BE de -9,0 (VR -3 a +3). Além da hidratação venosa, qual é a conduta que deve ser adotada neste momento para o tratamento do quadro apresentado pela paciente?

Alternativas

  1. A) Iniciar insulina regular em bomba de infusão contínua.
  2. B) Iniciar reposição de potássio endovenoso.
  3. C) Iniciar insulinização plena com NPH e regular por via subcutânea.
  4. D) Iniciar reposição de bicarbonato de sódio endovenoso.

Pérola Clínica

CAD com hipocalemia (K < 3.3 mEq/L) → iniciar reposição de potássio ANTES ou simultaneamente à insulina, após hidratação inicial.

Resumo-Chave

Na cetoacidose diabética, a hipocalemia é uma preocupação crítica. Embora a insulina seja fundamental, sua administração sem correção prévia ou simultânea de potássio pode agravar a hipocalemia, levando a arritmias cardíacas fatais. A reposição de potássio deve ser iniciada quando o K+ sérico estiver < 5.3 mEq/L, e obrigatoriamente antes da insulina se K+ < 3.3 mEq/L.

Contexto Educacional

A cetoacidose diabética (CAD) é uma complicação aguda grave do diabetes mellitus, caracterizada por hiperglicemia, acidose metabólica e cetonemia. É uma emergência médica que exige reconhecimento e tratamento imediatos para prevenir morbidade e mortalidade significativas. A CAD é mais comum no diabetes tipo 1, mas pode ocorrer no tipo 2 em situações de estresse fisiológico. A fisiopatologia envolve a deficiência absoluta ou relativa de insulina, levando à gliconeogênese e glicogenólise hepáticas descontroladas, resultando em hiperglicemia. A falta de insulina também promove a lipólise, liberando ácidos graxos livres que são convertidos em corpos cetônicos no fígado, causando acidose metabólica. Os sintomas incluem poliúria, polidipsia, náuseas, vômitos, dor abdominal, respiração de Kussmaul e alteração do nível de consciência. O diagnóstico é confirmado por hiperglicemia (>250 mg/dL), pH < 7.3, bicarbonato < 18 mEq/L e cetonas na urina ou sangue. O tratamento da CAD consiste em hidratação vigorosa com solução salina isotônica, insulinoterapia intravenosa contínua e reposição eletrolítica, principalmente de potássio. A hipocalemia é uma preocupação crítica, pois a insulina, ao deslocar o potássio para o intracelular, pode agravar a deficiência. Portanto, se o potássio sérico for < 3.3 mEq/L, a reposição de potássio deve ser iniciada antes da insulina. Se o potássio estiver entre 3.3 e 5.3 mEq/L, a reposição pode ser iniciada simultaneamente à insulina. A reposição de bicarbonato é geralmente reservada para acidose muito grave (pH < 6.9 ou 7.0) e não é uma conduta inicial rotineira.

Perguntas Frequentes

Quando se deve iniciar a reposição de potássio na cetoacidose diabética?

A reposição de potássio deve ser iniciada quando o nível sérico de potássio for < 5.3 mEq/L. Se o potássio for < 3.3 mEq/L, a reposição deve ser iniciada imediatamente e a insulina deve ser postergada até que o potássio atinja pelo menos 3.3 mEq/L.

Por que a insulina pode agravar a hipocalemia na CAD?

A insulina promove a entrada de potássio para o compartimento intracelular, o que pode exacerbar a hipocalemia preexistente na cetoacidose diabética, aumentando o risco de arritmias cardíacas e outras complicações graves.

Qual a importância da hidratação inicial na cetoacidose diabética?

A hidratação inicial com solução salina isotônica é crucial para restaurar o volume intravascular, melhorar a perfusão renal e reduzir a hiperglicemia e a cetonemia, diluindo os solutos e promovendo a excreção de glicose e cetonas.

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