UNESP/HCFMB - Hospital das Clínicas de Botucatu (SP) — Prova 2025
Homem de 65 anos apresenta lesão elevada, circular e perolácea na região esquerda da bochecha de 2 cm. O cirurgião plástico opta por realizar uma biópsia excisional seguida por reconstrução local imediata. Após se recuperar da cirurgia realizada anteriormente, o paciente solicita a realização de um lifting de face. Ele informa que é tabagista ativo há 40 anos (1 maço/dia). A respeito do caso, assinale a alternativa correta:
Tabagismo → ↑ Risco de necrose de retalho; cessar ≥ 4-12 semanas antes da cirurgia.
A nicotina e o monóxido de carbono prejudicam a microcirculação e a oxigenação tecidual, sendo críticos para a viabilidade de retalhos cutâneos em cirurgias de face.
O manejo do paciente tabagista em cirurgia plástica reconstrutiva ou estética exige rigor. A fisiopatologia do dano tecidual pelo tabaco é multifatorial, envolvendo hipóxia tecidual, vasoconstrição e estado pró-trombótico. Em procedimentos de lifting facial (ritidoplastia), o descolamento cutâneo interrompe as artérias perfurantes, deixando a pele dependente apenas da rede vascular subdérmica. No fumante, essa rede já está comprometida, elevando drasticamente o risco de epidermólise e necrose. A orientação de cessação por pelo menos 3 meses, como indicado na questão, visa maximizar a segurança do paciente. Além dos riscos locais, o tabagismo aumenta as complicações respiratórias e cardiovasculares transoperatórias. O cirurgião deve ser enfático na necessidade de abstinência e, em muitos casos, realizar testes de cotinina urinária para confirmar a conformidade do paciente antes de proceder com cirurgias eletivas de grande porte.
A nicotina atua como um potente vasoconstritor periférico, reduzindo o fluxo sanguíneo nos pequenos vasos que nutrem a pele. Simultaneamente, o monóxido de carbono do cigarro liga-se à hemoglobina com maior afinidade que o oxigênio, formando carboxihemoglobina e reduzindo a oferta de O2 aos tecidos. Além disso, o tabaco aumenta a agregabilidade plaquetária e a viscosidade sanguínea, favorecendo microtromboses. Em cirurgias como o lifting facial, onde a pele é descolada e depende de um plexo subdérmico aleatório, essa combinação é frequentemente fatal para a viabilidade do tecido.
Embora não haja um consenso absoluto, a maioria dos cirurgiões plásticos e sociedades médicas recomenda um período mínimo de 4 semanas de abstinência total antes e depois da cirurgia. No entanto, para procedimentos de alto risco de isquemia, como grandes ritidoplastias ou abdominoplastias em ex-fumantes pesados, períodos de 3 a 6 meses são preferíveis para permitir a recuperação da microcirculação e a melhora da função pulmonar. A interrupção por apenas 24 horas melhora a oxigenação, mas não reverte os danos crônicos aos vasos sanguíneos.
As complicações variam desde deiscência de sutura (abertura dos pontos) e cicatrização lenta até necroses extensas de pele, especialmente nas extremidades dos retalhos onde a perfusão é mais precária. O tabagismo também está associado a um maior índice de infecções de sítio cirúrgico, devido à redução da atividade de macrófagos e neutrófilos na área operada. Esteticamente, fumantes tendem a desenvolver cicatrizes de pior qualidade, mais largas ou hipertróficas, devido à síntese inadequada de colágeno.
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